Brasileiros Pocotó Reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil Por Luciano Pires Autor de “O meu Everest” A meus filhos, Daniel e Gabriela, razão maior de minha preocupação por um Brasil melhor.

Sumário Prefácio................. 6 Introdução...............14 Cap.1— O Menemebê........23 Cap.2— Quiróspteros......33 Cap.3- País Braçal.......41 Cap.4— Boas Bundas.......48 Cap.5— Egüinha Pocotó....56 Cap.6— Pocotó Ii, O Retorno.........61 Cap.7— A Burrice.........66 Cap.8— O Buraco da Fechadura.........73 Cap.9— Merdades e Ventiras..........82 Cap.10— Como o Brasil....90 Cap.11— Homenagem ao Malandro........101 Cap.12— O Problema e a Solução.......110 Cap.13— O Legista.......115 Cap.14— Os Velhinhos....122 Cap.15— Com Quem Será?..128 Cap.16- O Bravo Vigilante.......134 Cap.17— Vestindo a Camisa..........142 Cap.18- Ary Potter......149 Cap.19— Cadê os Brasileiros.....155 Cap.20— Sem “Poblema”...163 Cap.21— Seleção ou Sucessão........177 Cap.22— O Diálogo.......184 Cap.23- Ragatanga.......190 Cap.24- Os Donos da Verdade......200 Cap.25— O Rancor........206 Cap.26— A Santa de Vidro........215 Cap.27— E Se...?........222 Cap.28— Mais ou Menos como o Brasil...228 Cap.29- Mais ou Menos como o Brasil Ii.......235 Cap.30- A Bússola que virou Mapa......242 Cap.31— Globaltismo e Globalpia.......249 Cap.32— O Consenso......255 Cap.33— A Teoria dos Quatro Rês......262 Cap.34— O Jornalista....271 Cap.35— Três Cês........279 Cap.36- O Ogro..........286 Cap.37- A Carta.........297 Cap.38— Eu, Burro.......304 Cap.39— Corrente pra trás........311 Cap.40— As Lixeiras.....322 Cap.41— De Frente para o Vazio.........330 Cap.42— De Sortes e Oportunidades...337 Cap.43— Um Brasileiro...344 Cap.44— E Pur Si Muove..354 Cap.45— No Pain, No Gain.........363 Cap.46— Provocações.....369 Cap.47— Assim Mesmo.....375 Cap.48— O Brasil que me Emociona.....381 Cap.49— Mc Burros.......389 Cap.50- Nas Coxas.......397

Prefácio Catarse e consciência – conjecturas no país do Pocotó Eu sabia que outros milhões de brasileiros estavam naquele momento, assistindo o jumento, o cavalinho e a égüinha pocotó, sem perceber que a TV os chamava de burros. (Luciano Pires) Conheci Luciano Pires de maneira arrevesada. Geralmente conhecemos as pessoas através do contato físico, por obra de amigos comuncaso. Nosso primeiro contato foi diferente: se deu através de sua verve... Ou como diriam os antigos, por obra e arte (e bota arte nisso) de sua pena escorreita e humor mordaz... Explico-me. No programa Nova Manhã, que produzo e apresento em parceria com Irineu Toledo na rede Nova Brasil FM, passei a ler textos de Luciano para nossos ouvintes, transformando-me involutariamente em seu alter ego... Era curioso para mim – que desempenho o papel de comentarista no programa - tecer opiniões duras, críticas contundentes... feitas por outra pessoa! No começo temi que essa história não fosse ter final feliz. Afinal, não tenho a menor vocação para o papel de dublê de idéias... Na primeira vez a coisa correu redondinha – o texto, a la Nelson Rodrigues, espicaçava aquele sentimento que muitos de nós brasileiros insistimos em carregar conosco, algo resumido pelo mestre como “complexo de vira-lata”. Lá pelas tantas, me vi repartindo com os ouvintes a dura frase: “Fico imaginando quem mais, além dos brasileiros, é tão burro a ponto de falar mal de seu país, de sua casa, de sua propriedade, de sua gente, de suas conquistas, para desconhecidos”. Eu lera o que sentia. Apesar de não te-lo escrito... No dia seguinte nossa caixa postal ficou cheia. E eu amarguei uma baita crise de identidade... Quem era esse sujeito que me fazia vomitar minha indignação no ar, e mais que isso, tornar-me co-responsável por suas opiniões? Eu não lia, nem tampouco interpretava seus textos: eu os alardeava aos quatros ventos como se fossem meus! Não precisei de muito tempo para descobrir que a maioria de nossos ouvintes sentia o mesmo... Esta química continuou a se repetir nos programas que se seguiram, até o fatídico dia em que Gugu Liberato resolveu ocupar boa parte de seu (???) horário na TV (uma concessão pública, sempre é bom frisar!) com um espetáculo deprimente: a eguinha Pocotó e seus derivados - MC Serginho, Lacraia, e bundas, muitas bundas, dominicais e volumosas bundas... Naquela noite eu ainda reverberava de indignação quando abri minha caixa postal. Chegara um texto do Luciano, e na linha do assunto ele nos desafiava: “quero ver se vocês têm coragem...”. Tivemos. No dia seguinte seu texto foi ar. Sem tirar ou acrescer uma vírgula sequer. Lá pelas tantas ele desabafava: “Neste domingo, milhões de brasileiros assistiram, espero que envergonhados, ao triunfo da mediocridade. Á afirmação de que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil.” Mais uma vez Luciano se transformava no porta voz da indignação de muitos, ao mesmo tempo em que conseguia indignar aqueles que dele discordavam. De um lado, os envergonhados; de outro, os medíocres. No meio, ninguém... E mais uma vez ele conseguiu entupir nossa caixa postal – dessa vez, aliás, a coisa foi bem pior...-, com uma enxurrada de mensagens que, muito mais que simplesmente concordar (ou discordar), traziam opiniões próprias. As pessoas estavam reagindo! Saindo da letargia! “Alguém está decidindo, com a bunda, o que o brasileiro vai ouvir. E assistir”... Ao ler esta frase eu percebi que estava deflagrando um processo catártico – não o efeito moral e purificador da tragédia clássica, mas o da purgação, purificação, limpeza de algo que nos incomoda... Inevitável não retornar no tempo a la Proust, com o estalo sendo dado pela indignação que sentíamos ao ler os textos do velho Pasquim nos idos anos 60, ou ainda as crônicas rascantes do velho e bom Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País... Estaria eu voltando no tempo? Quando finalmente conheci meu “ghost writer” descobri que as coisas eram muito diferentes dos idos anos 60. O estilo, este até que poderia ser comparado. Mas os tempos, esses agora são outros, bem outros... Ao contrário daqueles tempos bicudos, hoje o brasileiro pode se indignar, sem o risco da perseguição política, da tortura policial ou da censura castradora. Somos livres! Livres para inventar, criar, para exercitar e desenvolver nossa criatividade. Livres para construir um país melhor. É esse alerta que Luciano Pires nos traz com seus textos, com suas palestras. Mas atenção: o processo é cirúrgico, e por isso mesmo não pode ser indolor... Portanto, prepare-se para o que irá ler. Você não será o mesmo ao final. Tampouco você será outra pessoa. Sem querer parafrasear a loira (nos dois sentidos...) da TV, você será mais você! Alexandre Pelegi Junho 2003

Introdução Nos anos 60, Sergio Porto — sob pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta — criou o Febeapá — o Festival da Besteira que Assola o País. Foi um sucesso. Em dezenas de artigos e alguns livros ele expôs exemplos da burrice, da mediocridade e da falta de imaginação dos brasileiros. Foram casos e mais casos de políticos, leis, convenções, notícias e histórias que chamaram a atenção pela falta de lógica, pela ignorância e pela estupidez dos propósitos e dos comportamentos. Eu notei que Stanislaw tratou do sintoma, mas pouco disse sobre a origem... E imaginei que, guardadas as proporções astronômicas que me separam do gênio Sergio Porto, poderia refletir mais a respeito. Um dia, escrevi um artigo (A Teoria de Krahmcneb – que você encontra em www.omeueverest.com) expondo minha visão da origem dessa mediocridade. Nele, eu dizia que o País sofria com o Menemebê, o Movimento Nacional pela Mediocrização do Brasil. Ao publicá-lo de forma resumida em algumas revistas específicas (nunca na grande mídia) e na Internet, recebi centenas de manifestações de solidariedade. E quando transformei o artigo numa concorrida palestra, que tive (e tenho) a oportunidade de realizar por todo o Brasil e pela Argentina e México, percebi que os problemas que eu discutia eram universais. A mediocridade a que eu me referia não era exclusivamente brasileira. Era parte dos novos tempos, quando trocamos conteúdo por forma, quando nos tornamos seres superficiais, com pressa e satisfeitos com pequenas soluções para problemas menores. Passei a escrever mais a respeito e logo formei um grupo de interessados aos quais remeto um texto toda sexta-feira. E, em fevereiro de 2003, depois de ver minha vida ficar mais miserável ao assistir a uma apresentação de funk num dos programas dominicais da tevê, escrevi um outro artigo indignado, chamado EGÜINHA POCOTÓ, que foi espalhado pela Internet, gerando uma reação em cadeia que entupiu minha caixa postal com mais de 1.500 mensagens. A maioria, cerca de 95%, eram mensagens de gente que concordava com minhas posições e clamava por alguma atitude contra o processo de mediocrização que nos assombra. Percebi, então, que existe uma carência pela reflexão sobre o Brasil, seus problemas, riscos e oportunidades, sob um ponto de vista diferente das patrulhas, da pseudo-intelectualidade, do academicismo incompreensível e, principalmente, da mediocridade simplista e superficial, tão comuns em nosso dia-a-dia. É isso que tenho tentado fazer, usando a ótica do cartunista que sou, antes de ser um profissional de comunicação, jornalista ou dirigente de uma grande empresa. Alguns podem questionar essa pretensão. Afinal, com que autoridade me meto a escrever e criticar ou elogiar o comportamento do brasileiro, entrando como um clandestino na canoa em que navegaram Gilberto Freire, Nelson Rodrigues, Mario de Andrade... gente com uma estatura, um brilho, uma verve que eu só posso, e mal, copiar? Eu, um Zé Mané, que não sou doutor em nada, não tenho PhD em nenhuma universidade do primeiro mundo, não sou acadêmico nem circulo nos meios intelectuais? A esses respondo de forma simples: com a autoridade de ser um brasileiro com 46 anos. Com a experiência de executivo de uma grande empresa, constantemente em contato com outras culturas, de países ditos “mais desenvolvidos”. Com a experiência de palestrante para os mais diversos tipos de pessoas em todo o Brasil. Por ter viajado pelo Interior do País, vendo de perto o lado triste da miséria, mas também o lado alegre dos brasileiros que fazem acontecer. Com a autoridade de quem é contra os excessos da direita, do centro ou da esquerda. De quem não tem paciência com a burrice. E, acima de tudo, com a consciência de que eu tenho de fazer alguma coisa! Acho que, ao aplicar humor, irreverência e simplicidade aos temas que muitos tornam, por ignorância, má intenção ou incompetência, inacessíveis e complexos, realizo uma missão cívica, que me mantém em paz com minha consciência. Estou fazendo minha parte. Estou fazendo algo. Disse Erico Verissimo em seu Solo de Clarineta: "O menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como sinal de que não desertamos nosso posto." Este livro é meu toco de vela. Traz meus escritos sobre o Brasil, os brasileiros e o momento em que vivemos. Alguns vão estar datados. Outros são atemporais. Alguns falam do mundo. Mas todos, de uma forma ou de outra, tratam do Brasil. Convido você a dividir comigo algumas reflexões e imaginar como podemos aprender com o passado e transformar em realidade os sonhos para um Brasil melhor. Capaz de nos dar a certeza de que não somos brasileiros pocotó. Santana de Parnaíba, junho de 2003 lucianopires@interair.com.br

- Capítulo 1 O Menemebê O MNMB - Movimento Nacional pela Mediocrização do Brasil. Carinhosamente apelidada de Menemebê, essa organização teve suas origens obscuras, mas recebeu um impulso agressivo há 40 anos, com a expansão das mídias de massa, em particular da televisão. Nesse período, o Menemebê cresceu numa velocidade impressionante, chegando forte e poderoso ao século Xxi. O mais curioso: sendo virtual, o Menemebê não tem endereço. Não tem telefone. Não tem presidente ou diretores. Ninguém sabe onde fica ou se tem dono. Mas tem, hoje, milhões de seguidores em todo o País. Mais que a somatória de todos os movimentos religiosos. Mais que todas as torcidas de todos os times de futebol. O Menemebê tem poder. Tem dinheiro. E sua estratégia resume-se numa frase: “Agindo nos bastidores enquanto ninguém vê”. Você vai ao trabalho: tem Menemebê. Você vai ao clube: tem Menemebê. Você vai à igreja: tem Menemebê. Você abre o jornal, liga o rádio ou a tevê e é só Menemebê. E o mais curioso: as pessoas que trabalham pelo Menemebê, com raríssimas exceções, não sabem disso. E nem é preciso ser sócio de carteirinha, atuante. Basta Aceitar as mediocridades que o Menemebê patrocina para dele fazer parte. Quando descobri essa história, entendi o Brasil. E preciso dividir com vocês algumas dicas. O Menemebê está presente, quando: ...na lista das músicas mais tocadas, o Pocotó, o Bonde do Tigrão, o funk de baixaria, os subpagodes, sertanejos pop e as coletâneas de novela; ...ligamos o televisor e vemos Faustão brigando com Gugu, Big Brother e as pegadinhas de um malandro qualquer; ...vemos oito torcedores assistindo, num Pacaembu vazio, ao Palmeiras jogar contra um certo Genésio Futebol Clube daquela cidade... (como é o nome mesmo?); ...vemos o nível dos políticos responsáveis por nosso futuro; ...a comida mais comida é um hambúrguer de fast food; ...os livros mais vendidos são de auto-ajuda, escritos por gurus de araque; ...a mulher mais desejada tem meio litro de silicone; ...um fabricante lança um novo produto e o concorrente baixa o preço. Em poucos meses o produto vira commodity e ninguém mais ganha dinheiro produzindo; ...uma montadora, para lançar um carro mais barato, elimina o retrovisor lateral. Aí, a outra elimina o acendedor de cigarros. A terceira, tira fora a tampa do porta-luvas, e lança o processo de pioria contínua; ...um mecânico experimenta um produto de segunda, de procedência incerta, “mas bem baratinho, dá para o gasto”. Logo o mercado fica entupido de produtos que colocam a segurança em risco; ...uma loja de varejo vende sem nota. E, logo, todo mundo está sonegando; ...uma empresa resolve comprar os pedidos, oferecendo aos clientes televisores de 20 polegadas como brinde. Outras oferecem aparelhos de 29 polegadas. Depois de 32, de 50, até acabar o dinheiro. Aí, as vendas voltam a ser o que eram antes; ...um genial gerente de marketing decide lançar luxuoso catálogo e seus colegas concorrentes também publicam os seus, em inglês, espanhol e alemão, tudo junto na mesma página. Impossíveis de usar, mas...que lindos!... ...um genial gerente de vendas decide aumentar, ou diminuir, os prazos para os clientes. E todo mundo vai atrás: o mercado aprende a esperar até dia 30, às cinco em ponto da tarde, quando o GG faz qualquer negócio para fechar o mês; ...uma montadora apresenta um novo automóvel e o brilhante diretor de marketing e sua criativa agência aplicam 6 milhões de dólares em propagandas lindíssimas na tevê. Ganham o Pacu de Ouro no Festival de Duartina e os outros vão atrás. Para alegria das criativas agências e para o desespero da rede, que não tem o produto para pronta-entrega nem argumentos de vendas. Mas que campanha!; ...um genial e-gerente coloca seu site na Internet. Os outros também lançam os seus. Logo descobrem que ninguém se interessou em conhecer a visão, a missão e os valores da empresa. Nem em admirar a lindíssima foto aérea da nova fábrica; ...um fabricante anuncia demissões para reduzir custos. Os outros cortam também, na engenharia, na qualidade, no marketing, em serviços, no treinamento, nas conhecidas áreas não-produtivas, centros de custo e não de lucros. Aí, (e ninguém sabe porquê) aparecem produtos com má-qualidade. Recall. ...o neanderthal político chama o velho político de sapo barbudo. E na outra eleição estão os dois abraçados, jurando amor eterno; ...não importa quantas crises o Brasil tenha vivido. Todo ano o País pára por causa da nova crise que, essa sim, vai acabar com o País. E dá-lhe juros altos, papo-furado na mídia, estatísticas imbecis e o povo, mais uma vez, olhando para o chão e achando que não tem jeito; ...os governos estaduais disputam no tapa as grandes indústrias, dando-lhes todo tipo de concessão, reduzindo impostos e prometendo mundos e fundos. Quando a fábrica se instala, o governo mete uma tremenda taxação sobre os produtos por ela produzidos e logo descobre-se que existe excesso de capacidade, que a coisa não saiu como se esperava e tal e qual; ...(acrescente quantos exemplos você quiser). Quando descobri o Menemebê, quase como mágica, fez-se a luz... e comecei a entender as coisas do Brasil. Vi que nada era por acaso... que as demonstrações de burrice nacional tinham um ponto comum: eram maquinações do Menemebê. Cismado com essa história, fui atrás de suas raízes, tentando entender de onde vem essa motivação para a mediocridade. Essa aceitação do medíocre. Essa falta de senso de ridículo tão comum ao brasileiro. E encontrei muitas explicações. Nos capítulos a seguir, reflito a respeito, comento certos acontecimentos, sonhos e momentos-chave para o Brasil neste início de milênio.

- Capítulo 2 Quirópteros Tentando entender porquê gente aparentemente inteligente aceita, promove e incentiva a mediocridade em nosso dia-a-dia. Um dos pontos-chave para entender a mediocridade que assola o País, é a observação de nosso sistema educacional. Num período de 35 anos, desde o início dos anos 70. Lembra? Não é preciso muito para verificar que ele envelheceu. Estagnou-se. Quebrou. Ficou ultrapassado. “Mas, como, se todas as estatísticas apresentadas pelo Governo mostram uma melhora substancial? Nunca tivemos tantas salas de aula. Nunca tivemos um número tão baixo na evasão escolar. Nunca tivemos tanta tecnologia a serviço da educação?!” Pois é aí que mora o perigo... A maioria dos números que demonstram a melhora substancial da educação no Brasil dizem respeito à forma. E deixam de lado o conteúdo. É verdade que houve uma melhora substancial, quantificável, no sistema educacional brasileiro, principalmente nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso. Mas, quando minha filha de 12 anos me chama para ajudar no trabalho de escola, e descubro que ela está aprendendo seno, co-seno e tangente....que está prestes a decorar uma tabela periódica... que mergulha na história de Cartago... coisas que aprendi na escola há mais de 30 anos... penso que alguma coisa está errada. Pouco ou nenhum esforço é dedicado a ensiná-la a PENSAR. Despejam-lhe um conteúdo envelhecido, padronizado e desatualizado, que deve ser decorado. Aí, meu filho mais velho, aos 18 anos, presta vestibular. Olho sua apostila e não acredito no que vejo. Toneladas de conceitos inúteis, fórmulas e questões fora de propósito, nenhuma provocação à criatividade... coisas que, decoradas, serão esquecidas alguns dias após o exame. E que nunca mais servirão para nada. Nenhuma questão que provoque uma discussão sobre o Brasil, sobre o raciocínio crítico, sobre comportamento... Recomendo a quem gosta deste tipo de discussão que leia “Por uma Educação Romântica, de Rubem Alves. E encerro esta argumentação com uma historinha: Eu tinha 12 anos. E minha professora de Ciências pediu um trabalho escolar sobre quirópteros: a ordem dos morcegos. Comprei cartolina (lembra-se?). Pincel atômico. Cola Tenaz (a grande novidade que substituía a goma arábica). E mergulhei na minha enciclopédia Conhecer. Para encontrar os quirópteros, eu navegava pela enciclopédia, passando pela Grécia Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha da China. Pelos dinossauros. Por como funciona um navio. Pelos satélites artificiais... Motivado pela curiosidade infinita de uma criança, eu viajava pelas páginas, pelas ilustrações multicoloridas, durante horas. Até achar os tais morcegos. Aí, copiava o texto, recortava revistas, colava na cartolina e, na segunda-feira, levava aquela coisa amassada para a escola e via a professora examinar e me dar a nota. Era assim o processo. E nunca mais esqueci o que são quirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como morreram os dinossauros... Pois minha filha de 12 anos recebeu recentemente a tarefa de fazer um trabalho sobre Cartago. Chegou em casa. Abriu o Yahoo! e tomou a única providência que a obrigou a pensar: digitou com cuidado: c-a-r-t-a-g-o. Abriram-se dezenas de sites. Ela escolheu um. Imprimiu. Fez uma capa. Levou pra escola e tirou sua nota... “Que Inveja!” Eu não tive esses recursos quando era garoto! Impressora em vez de cartolina! Internet em vez de enciclopédia! Mas, espera um pouco! Minha filha não teve a chance de passar pela Grécia Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha da China, pelos dinossauros, ver como funciona um navio, os satélites artificiais... e viajar pelas páginas da enciclopédia durante horas. Até achar Cartago... O computador a levou direto ao ponto. Sem voltas. Sem desvios. E me pergunto se, daqui a 30 anos, ela vai se lembrar o que era Cartago. A enciclopédia foi meu mentor. Mesmo quando meus pais ou professores não estavam ao meu lado, eu tinha um guia mágico, uma sucessão de páginas multicoloridas que me levavam por assuntos interessantes e me enchiam a cabeça de informações. Hoje, com essa vida corrida e exigente, na maior parte do tempo meus filhos não têm ao lado um mentor, um professor exigente. E também não têm a enciclopédia, coisa anacrônica e ultrapassada na visão da garotada multimídia, para guiá-los. Têm “apenas” um programa maravilhoso de navegação na Internet, que os leva direto ao ponto. Têm mais cor, mais som, movimento. Estão conectados com o mundo. Têm acesso ilimitado à informação. Só não têm um tutor chamado enciclopédia Conhecer... ou Barsa. É a isso que me refiro quando falo da deterioração da educação. Nossos filhos não são obrigados a pensar. Não são motivados a pensar. Não são convidados a pensar. Não são seduzidos pelo pensar. As fórmulas estão prontas para serem decoradas e rapidamente utilizadas. Vence quem decorar melhor. Vence quem melhor assimilar as fórmulas. Mas por quanto tempo?

- Capítulo 3 O País Braçal A mídia e sua capacidade de seduzir, criando um mundo de ilusão que, ao disseminar fórmulas prontas, ajuda a matar a nossa imaginação, mediocrizando um pouco mais o Brasil. Falei sobre a necessidade de olhar o sistema educacional brasileiro numa perspectiva de 40 anos para trás. Mas o que acontece se também olharmos a sociedade de consumo nessa perspectiva? O que a gente vê é o surgimento da televisão, da mídia, da propaganda, numa escala inimaginável. O convite ao consumo está presente em todos os segundos de nossos dias. As fórmulas acabadas são lançadas diante de nossos olhos em qualquer lugar, em qualquer condição. E cria-se um mundo virtual que é a expressão mais agressiva da democracia: qualquer um, até mesmo um analfabeto, tem um televisor ao seu alcance. Liga e ouve o Willian Bonner ou o Boris Casoy falando da eleição, da economia. Pensa que entende. E toma suas decisões. Essa engrenagem midiática, se é que o termo existe, torna-se uma espécie de poder paralelo, informal, que dita regras de comportamento e chega, nos momentos de maior enlouquecimento nacional, a definir a eleição de um presidente quase como na escolha do vencedor do reality show... Essa combinação de sistema educacional ultrapassado com sociedade de consumo sedutora gera conseqüências complicadas. A primeira delas surge quando o espírito comercial toma conta. Tudo é uma questão de vender. E muito. As empresas produzem apoiadas em fórmulas simples, facílimas de serem assimiladas pelo maior número possível de pessoas, garantindo, assim, o maior volume possível de compradores. Para isso, nivelam por baixo. Essa engrenagem cria um clima de sedução, colocando tudo aquilo que queremos e o que outros querem que queiramos, diante de nossos olhos. E, pior, com fórmulas prontas, com modas, modelos. E todos passam a consumir aquilo que está dentro dos padrões. Daí surgem os Tcham, os Belo, os Bonde do Tigrão, os pagodeiros, os sertanejos. Essas coisas que são tratadas como Música Popular Brasileira são imposições de um sistema que, pela repetição sufocante, cria uma demanda artificial e vende milhões. Rapidinho. Na mesma velocidade com que são esquecidos. E a engrenagem é tão senhora de si que já se dá ao luxo de montar um conjunto musical diante de milhões de espectadores que acompanham a escolha das garotas entre milhares de candidatas e, meses depois, vão consumir um dos milhões de unidades do CD do grupo, que canta uma música incompreensível, mas de formulação imbatível. Tudo, absolutamente tudo, artificial. Montado componente por componente. Como um hambúrguer daquele fast food cultural em que nos transformamos. Mas qual é o problema? O povo gosta! O problema não é o Bonde do Tigrão, o funk de baixaria ou os pagodeiros. De certa forma, esses eventos são manifestações que representam uma parcela da realidade, um grupo de pessoas, um tipo de arte que é necessária, e ingrediente de nosso caldeirão cultural. O problema é quando ao público é oferecido SÓ isso. Você já reparou na programação das tevês de domingo? Olha, os sertanejos, o Bonde, a Kelly, o Tchan, o Karametade usam um espaço precioso, que deixa de ser ocupado por artistas com propostas menos comerciais, mais densas, mais ricas. Que poderiam dar uma contribuição maior para o crescimento cultural dos espectadores. Falo da música, mas poderia estar falando de literatura. De cinema. De moda. De tevê. De imprensa... Esse nivelamento por baixo cria uma situação em que tudo fica igual. As pessoas passam a se comportar de forma semelhante. Copiando as velhas fórmulas. Fazendo aquilo que todo mundo faz. Velhas fórmulas são compostas por velhos pensamentos. Sua repetição cria a rotina. A rotina gera o medo de que a rotina seja quebrada. E desse medo surge a mediocridade. Que, por sua vez, mata a imaginação... e as pessoas pensam pensamentos antigos... que geram mais rotina... e assim vamos, encolhendo a capacidade de criar do brasileiro. Matando sua imaginação. E descobrimos, tristemente, que nos transformamos num país de operários braçais. Só de braçais. Quer _Construir algo? Chame um brasileiro. Quer _Projetar algo? Chame um americano, um alemão ou um espanhol, que está na moda.

- Capítulo 4 Boas Bundas Quando a ditadura do comércio passa a definir a distribuição da cultura nacional, o resultado é a mediocrização generalizada. Pois então... Educação degradada. A sedução do consumo em alta. Fórmulas prontas. Mídia massificante. Música? É CD bem balançado, com letras falando das partes das mulheres e com um negro de cabelo pintado de branco e duas boazudas rebolando. Vende milhões. Tente botar na praça um CD mais elaborado... vai vender 25 mil cópias. E o artista vai ser chutado pela gravadora. Como tem acontecido com grandes nomes da Música Popular Brasileira. Livro? Auto-ajuda. Poucas páginas. Letras grandes. Texto fácil de ler. E, de preferência, com muitas, MUITAS fotos. Fotos de bichinhos, de velhinhos, de bebezinhos, de cachorrinhos... fácil, facílimo de ler. Vende milhões. Tente lançar um livro mais sofisticado. Se for best-seller, vende cem mil exemplares. Se não for, como 99% do que é lançado no Brasil todo ano, vende cinco mil cópias, e é considerado um sucesso. Que contribuição para a literatura um livro de auto-ajuda pode dar? E, de novo: o problema não é o livro em si. O problema é quando ele ocupa o espaço que poderia estar sendo utilizado por outras obras, mais comprometidas, profundas e ricas... Tevê? Uma apresentadora ou apresentador falante e de preferência com boa fachada. Um mini auditório. Matérias especulativas, escrachadas, repetitivas, mentirosas ou dramas de aluguel. E pegadinhas. E testes de fidelidade. Eu acho que todos os apresentadores desses programas acordam de manhã e rezam para que um dos dois componentes de uma dupla sertaneja famosa (ou meio famosa) morra durante o dia. Assim, no domingo, eles levam o que sobrou vivo ao programa, botam no ar os vídeos e as fotos do defunto, dão uns closes na cara do viúvo, que chora como uma carpideira, e levam o Ibope para as nuvens... Fórmulas prontas. Facilmente assimiladas. E assistidas por milhões... Tente botar no ar um programa mais denso. Talvez seja exibido à uma da manhã. Ou na tevê a cabo... Quando me refiro a “ocupar espaço”, quero dizer o espaço físico mesmo, nas prateleiras, no tempo de exibição, nas páginas de revistas. Mas também quero dizer no esforço promocional, na verba de comunicação, nas ferramentas que vão disseminar pelo público as novidades e gerar interesse. Quantos anos tinham Caetano Veloso e Gilberto Gil quando surgiram com um movimento chamado Tropicalismo, que mudou a história da Música Popular Brasileira, no final dos anos 60 e início dos 70? Vinte e poucos. E Tom Jobim, João Gilberto, Edu Lobo, com a Bossa Nova, no final dos 50 e meados dos 60? Vinte e poucos. E Chico Buarque, e Milton Nascimento? Vinte e poucos. E Glauber Rocha, arrebentando as fórmulas com o Cinema Novo? Vinte e poucos... Quantos artistas com 20 e poucos anos conhecemos hoje com potencial para representar para a música, para a tevê ou para o cinema aquilo que esses nomes representaram em suas épocas? Gente que vai certamente estar sendo ouvida com admiração daqui a 30, 40, 50 anos? Tente lembrar de alguns. Tá difícil? Então, vou ajudar: podem ser artistas com seus 30 anos... Continua difícil? Quem? Marisa Monte? Claro! E o que é que a Marisa Monte anda fazendo? Produzindo CDs com gravações da Velha Guarda de escolas de samba e sambistas que, com seus 70, 80 anos, jamais gravaram suas músicas. Quem? Ed Motta? Claro! E o que é que ele anda fazendo? Relançando grandes discos da Black Music dos anos 60 e 70, tesouros que foram esquecidos... Bebendo nas fontes ricas que brotaram da cultura pura, do talento, de um Brasil não contaminado pela visão egoísta do consumismo. Assim como Chico, Caetano, Gil e Tom iam buscar na poesia e na música dos anos 10, 20, 30...em Fernando Pessoa, Cecília Meireles e outros poetas, no cinema, nas artes plásticas, a inspiração para suas letras que descreveram, discutiram, criticaram e documentaram social e politicamente suas épocas. Tá difícil achar outros nomes na faixa dos 20 ou 30? Pois saiba que eles existem, sim, às centenas. Mas não conseguem um espaço para mostrar seu trabalho. Para que o público conheça suas propostas e possa decidir transformá-los em sucesso. Quando chegam lá, a cadeirinha está ocupada por uma dupla sertaneja, um quarteto de subpagode, um trio de subaxé, ou uma loura gostosa. Afinal, como provam os anúncios de cerveja, no Brasil nada resiste a uma boa bunda.

- Capítulo 5 Egüinha Pocotó Vou mandando um beijinho Pra filinha (sic) e pra vovó Mas não posso esquecer Da minha egüinha Pocotó Pocotó,pocotó, pocotó Minha egüinha Pocotó… Esse é o grande sucesso da Música Popular Brasileira que, por vários domingos, ocupou horas preciosas do horário nobre do Programa do Gugu, batendo recordes de audiência. O autor é um tal de MC Serginho... e o ritmo é uma coisa que os do ramo chamam de funk. Enquanto o Serginho recitava a letra, um sujeito efeminado tinha convulsões que, depois, descobri ser a tal dança da egüinha Pocotó. O nome do sujeito? Lacraia. Meus amigos, naqueles domingos, consagrou-se o mais novo ídolo da Música Popular Brasileira: o Lacraia. O jumento e o cavalinho Eles nunca andam só Quando sai (sic) pra passear Levam a égua Pocotó Pocotó, pocotó, pocotó Minha egüinha Pocotó Enquanto o índice da audiência subia, a atração era mantida no ar. E, à noite, foi orgulhosamente reprisada por um Gugu exultante com a audiência histórica. Neste domingo, milhões de brasileiros assistiram, espero que envergonhados, ao triunfo da mediocridade. À afirmação de que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil. Eu sou pai. E assisto, consciente de minha impotência diante da máquina da televisão, minha filha de 12 anos se divertindo, cantando e dançando o pocotó. Por sorte, ela não entende as letras paupérrimas, chulas, apelando para o sexo e tratando as mulheres de éguas e cadelas. Sabe o que mais dói? É que, enquanto essas baixarias ocupam horas do horário nobre, os brasileiros que fazem música de qualidade estão sendo deixados de lado. Vale o que os homens de marketing das gravadoras acham que vai vender. E dá-lhe a dança da garrafa, a dança da cadela, a dança da egüinha... Nessas horas, tenho vergonha de ser um profissional de marketing. Imagino que se aparecessem hoje dois jovens, com seus 23 anos, chamados Caetano Veloso e Gilberto Gil, seriam deixados de lado em favor do tal MC Serginho ou outras mediocridades que vendem. E não teríamos o Tropicalismo. Surgisse um Chico Buarque, com seus 20 e poucos anos, não chegaria nem às rádios alternativas. Porque alguém está decidindo, com a bunda, o que o brasileiro vai ouvir. E assistir. O resultado é a mediocrização da Música Popular Brasileira. A popularização do lixo. A lavagem cerebral da garotada. Que música estará sendo feita no Brasil daqui a 30 anos, pelos garotos que estão tendo a cabeça feita pela egüinha Pocotó? Eu me senti ofendido. E o consolo de desligar a televisão, não adiantou. Eu sabia que outros milhões de brasileiros estavam naquele momento assistindo o jumento, o cavalinho e a egüinha Pocotó, sem perceber que a tevê chamava-os de burros.

- Capítulo 6 Pocotó Ii, o Retorno Quando publiquei o artigo anterior, a reação foi gigantesca. Até o SBT me respondeu. E mostrou-me que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil. Meu texto sobre a nova sensação da MPB, a “Egüinha Pocotó”, teve uma repercussão gigantesca. Acho que escrevi o que muita gente pensava... Algumas mensagens que recebi, no entanto, defenderam o Pocotó. Uma delas comparou o autor da música, MC Serginho, a Elvis Presley, cujo rebolado chocou os moralistas. Imaginei o alvoroço em Memphis, quando daquele luxuoso túmulo ecoaram gritos afinados: “It’s now or never! It’s now or never!” Outro disse que eu devia desligar a tevê e ir para um parque, em vez de ficar reclamando, como se o “efeito pocotó" fosse um problema de escolha pessoal. Não é. É coletivo. E fingir que a tevê não existe não é uma opção. Parece que resolve seu problema, como se o mundo lá fora não existisse. Outro escreveu me chamando de mau (com u mesmo) amado. A esses, explico melhor. O problema NÃO é a dupla MC Serginho e Lacraia. De certa forma, eles são manifestações legítimas de um determinado grupo de pessoas, de uma região do Brasil. O problema é o Gugu e o Faustão, SIM, junto com os João Kleber, Serginho Mallandro e seus diretores, que se aproveitam dessas porcarias para conseguir audiência, tratando a maravilhosa máquina que têm nas mãos, como um triturador de lixo. Pela história de luta, por sua origem e pelo sucesso, sempre admirei o SBT. Posso discordar de alguns métodos, mas jamais negar sua importância cultural para o País. Pois eles responderam a meu texto sobre o pocotó no Gugu com esta carta elegantemente irônica e educada (mantive as aspas originais): Luciano Embora "inflamadas" suas opiniões merecem nossa atenção e "democraticamente" as respeitamos. Por outro lado, permita-nos reafirmar o compromisso perene do SBT em criar, produzir e exibir uma programação de qualidade, a qual objetiva cumprir as funções essenciais da televisão, ou seja, informação e entretenimento. Esta, inclusive, pertinente ao assunto em questão, o qual como você bem disse resultou em excelentes índices de audiência que, apenas, ratificaram a empatia do público para com nossa emissora. Permita-nos, ainda, afirmar que nem sempre "ser popular é apelar" e é perfeitamente factível "exibir sensualidade sem conotações de erotismo ou vulgaridade". Reconhecemos, todavia, que a subjetividade é soberana e, conseqüentemente, "o que seria do amarelo se todos gostassem do vermelho? Assinado, SBT Produzir e exibir programação de qualidade: pocotó. Informação e entretenimento: pocotó. Empatia do público para com a emissora: pocotó. Sensualidade sem conotações de erotismo: pocotó. A subjetividade é soberana: pocotó. Vinda de uma máquina capaz de eleger um presidente da República, de mudar o comportamento de milhões de pessoas, de criar moda, de lançar tendências, de gerar modelos de comportamento, a resposta é, no mínimo, assustadora. Indica que você tem mais é que se conformar em ser um brasileiro pocotó. - Capítulo 7 A Burrice O Brasil passa por uma crise de mediocrização. Aliás, sempre passou. Mas com o advento da mídia de massa, nos últimos 30 anos, a coisa extrapolou. O que chega às massas é a essência da burrice nacional. Produzem-se coisas medíocres, facílimas de serem consumidas, assim muita gente compra e a turma ganha muito...dinheiro. Um editor desenvolveu livros infantis. Texto primoroso, ilustrações fabulosas, de alto nível. Aí, contratou uma especialista em marketing de livros infantis para saber como vender muito. A recomendação? “Torne os textos mais simples e mais curtos. Aumente o tamanho das letras. Torne as ilustrações mais simples. Reduza o número de páginas. E venda por R$ 8. Do jeito que está, os professores e alunos não terão saco para ler, ninguém vai pagar o que você está pedindo...” O editor ficou indignado com a perspectiva de descaracterizar seu projeto naquilo que ele tinha de mais rico: o conteúdo. E deixou tudo de lado, esperando melhores dias. Mais tarde, no lançamento de meu livro “O meu Everest”(www.omeueverest.com), num almoço com gente da distribuição de livros, perguntei o que transforma um livro num best-seller: - “a distribuição”; - “a propaganda”; - “o preço”; - “colocar na lista dos 10 mais da Veja”; - “ficar em cima das livrarias para expor o produto...” E eu, tonto: - “E o conteúdo? O fato de o livro ser bem-escrito?” - “Não, isso nem é tão importante...” Aí me deram uma relação de porcarias, algumas vergonhosas, que têm freqüentado a lista dos 10 mais vendidos nos últimos meses... E foram justificando: - Sabe o que é, tem muita porcaria editada no Brasil. Livros mal-escritos. Mal-impressos. Mal-editados. É duro achar um bom autor nacional combinado com uma boa editora. E em nome dessa postura de “sempre foi assim”, a gente abre as revistas semanais e vê o espaço dedicado aos livros de estrangeiros muito maior que o dedicado aos brasileiros. E, quando há, falam de quem? Ignácio de Loyola, Paulo Coelho, João Ubaldo, Verissimo... falam de quem já tem nome. Os que ainda não têm estão brigando para ganhar uma linhazinha aqui, uma mençãozinha ali... Eu sei. Vivi isso tudo e não entendi como os brasileiros com poder de decisão não investem para que os talentos brasileiros apareçam, sejam discutidos, tenham uma exposição, sejam criticados. É o exercício da discussão, da crítica, da exposição que vai proporcionar o surgimento dos talentos. A gente já descobriu isso no futebol. É das escolinhas, das peneiras, da várzea, dos clubes amadores que surgem os grandes talentos. É dos celeiros. E cadê os celeiros de talentos culturais do Brasil? O que é que a mídia nos dá hoje? Porcarias com corpos perfeitos, bundas fantásticas, cabelos deslumbrantes e... nenhum conteúdo. A mídia nos dá a burrice. A tevê derrama a burrice. O jornal estampa a burrice. O rádio ecoa a burrice. Até os noticiários são um show de burrice. Meias-verdades, análises incompletas, ignorância sobre as relações de causa e efeito, desonestidade... É a exuberância da estupidez humana, da capacidade de cultivar a ignorância e ostentá-la em público. Por isso morro de saudade do tempo em que o Brasil era ignorante. Nos anos 40, 50, 60, quando tínhamos um mundo pela frente para descobrir, bastava vontade. Dos anos 70 para cá, o Brasil ficou burro. E, aí, não tem remédio. Burrice não tem cura. É mal degenerativo, só piora. E contamina. Temos burros no poder. E temos o maior de todos os males: o burro com iniciativa. Olha, eu não me considero burro. Mas, não raro, me comporto como tal. Pratico a velha fórmula de copiar velhas fórmulas, e fico igual a todo mundo. Não chamo atenção, não incomodo ninguém... Afinal, sou só um burro.

- Capítulo 8 O Buraco da fechadura Brasileiros apressados, superficiais e com visão curta tomam as decisões que vão nos ajudar a ficar um pouco mais... medíocres. Uma das atividades que exerço com o maior prazer é a de palestrante. É realmente gratificante poder expor idéias para um público que dá um retorno imediato. Essa atividade tem me proporcionado encontrar brasileiros de todos os Estados e comparar as reações de cada público a uma mesma mensagem. E um dos maiores prazeres é ser sempre chamado a palestrar em eventos onde reúnem-se centenas de pessoas fazendo acontecer. Nunca sou chamado para falar para gente que está reclamando da vida, esperando a morte ou um milagre chegar. Sou chamado por gente que está agindo. E acabo conhecendo um lado do Brasil que a mídia não mostra: o lado que está trabalhando (e eu disse TRABALHANDO , não roubando ou enganando) duro para o país dar certo. Nesse sentido, sou um privilegiado. Uma de minhas palestras, “ O Buraco da Fechadura”, é campeã em receber comentários. Nela, explico minha tese de que os brasileiros só enxergam o Brasil pelo estreitíssimo buraco da fechadura, sem observar as tendências e as relações de causa e efeito como os que abrem a porta para ter a visão ampla da situação. O que mais me chama atenção ao final da palestra são as demonstrações de orgulho, amor e motivação pelo País. Para quem está acostumado a ouvir somente o lado ruim, é um alívio perceber que existe uma grande parcela de brasileiros que não se deixa abater pelo rolo compressor da mídia e dos alarmistas que insistem em pintar os quadros sempre — e cada vez mais — negros. O outro ponto é a constatação da ignorância absoluta sobre os mais básicos conceitos da democracia, ou do funcionamento do Estado. Parece que todos esquecem aquilo que aprendem (mal) quando crianças: a complexidade de um sistema que tem os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário chocando-se a cada instante e transformando problemas de aparente fácil solução em indecifráveis enigmas que se prolongam por anos sem resposta. Aí, a fórmula mais fácil: pau no presidente. Ou no governador. Ou no prefeito. Ou no delegado... “-O Brasil está assim porque o presidente não toma uma atitude.” “-Outra enchente? Pô, a prefeita não resolve nada!” A esses simplistas, eu respondo com um diálogo: “- Você tem empregada doméstica?” “- Tenho.” “- Quem é o chefe dela?” “- Minha esposa.” “-E a empregada faz cagadas?” “-Xiii... e como faz!” “- Você está me dizendo que, mesmo com a sua esposa em cima todo dia, dando as ordens, explicando como quer as coisas e verificando se estão bem-feitas, a empregada faz besteiras, foge do controle?” “-Sim!” “-Então sua esposa é incompetente!” ... Ora, sigo apenas o raciocínio aplicado pelos simplistas aos problemas nacionais... A epidemia de dengue não é culpa do ministro? O apagão não é culpa do presidente? Os seqüestros não são culpa do secretário da Segurança? Como se o presidente ou a prefeita ou o delegado tivessem o poder de resolver tudo com uma assinatura. Não têm. E, mesmo que tivessem, abaixo deles existe uma equipe. E que equipe! Quantos respondem ao presidente? Trinta? Cinqüenta? E quantos respondem a esses? Trezentos? Quinhentos? E vai descendo... chegando facilmente a cem mil. Aí, um Zé não aperta o parafuso direito. Apagão. Culpa do presidente da Eletrobrás. Ou da República. O outro Zé não repara no vazamento de gás e afunda a plataforma, ou estoura o cano: culpa do presidente da Petrobras. E, lá em casa, quando a Maria deixa a torneira do tanque aberta e inunda a cozinha, você se atreve a culpar sua mulher? É possível evitar que, em cem mil pessoas, algumas (ou muitas) milhares façam besteiras? Olha, e isso porque estou sendo ingênuo a ponto de acreditar que nesse grupo de milhares, TODOS estão bem-intencionados, não há ninguém querendo ver o circo pegar fogo... Brasileiro simplifica tudo. E quando um e um não são dois, a gente culpa o ministro. Afinal, não é ele o dono da economia? Como se a economia fosse um sistema estático e controlável... Quando a Justiça não condena, a culpa é do juiz que é corrupto ou preguiçoso. Como se não houvesse leis dando respaldo a advogados hábeis, especialistas em botar bandido na rua. Olha, moçada, tá na hora de crescer um pouco, de perder a preguiça e procurar entender porque acontece o que acontece, antes de sair colocando a culpa em A ou em B. E não interessa quem seja A ou B. Se o alvo ontem era FHC, hoje é o Lula, e nada, NADA vai mudar. A culpa vai continuar sendo do presidente. Continuando a olhar os nossos problemas pelo buraco da fechadura, vamos achar que basta romper com o Fundo Monetário Internacional que o Brasil estará consertado... Ou que basta a pena de morte para acabar com a violência. Ou que basta dinheiro para acabar com a miséria... Moçada, nós, brasileiros, temos de perceber que as coisas são muito mais complexas do que parecem. Que a visão pelo buraco da fechadura é parcial, tendenciosa e limitada. Que nossos problemas são muito mais complicados do que o discurso fácil de determinados políticos, ou que a mídia preguiçosa ou ignorante faz parecer. É preciso _entender como as coisas funcionam para poder criticar ou dar sua opinião. Mas falta muito. Educação, reflexão, exposição às situações, pensamento crítico. Mas como exigir pensamento crítico de um povo que aprende a fazer política com o Alexandre Frota na Casa dos Artistas? E, olha que coincidência (ou não será coincidência?), olhando pelo buraco da fechadura...

- Capítulo 9 Merdades e Ventiras O que é verdade? O que é mentira ? Quando é verdade? Quando é mentira? Aos pouquinhos, os que constroem verdades mentirosas vão fazendo a cabeça do Brasil. Janeiro de 1990. Eu estava nos Estados Unidos, terminando de arrumar os detalhes para a recepção de um grupo de clientes que iria conhecer nossas fábricas. Lá pelo dia 15, começa o bombardeio ao Iraque, na operação Tempestade no Deserto. Uns quatro dias antes do embarque de nosso grupo de clientes aqui no Brasil, cheguei em uma de nossas fábricas em Chicago e recebi um aviso: "Ligue para o Brasil". Estavam me chamando de volta imediatamente. Uma bomba teria explodido no aeroporto de Miami. Muito arriscado. Pânico total. No Brasil, filas de gente brigando para comprar gás de cozinha "que ia faltar". Nos EUA? Nada. Nadinha. Nadica. Néris de pitibiribas, como se diz em minha terra, Bauru. Mas, no Brasil, ah, no Brasil era a tragédia! E a viagem foi cancelada. Alguém já disse que vivemos num país masoquista: adoramos fazer as coisas piores do que são. Parece que torcemos pelo desastre. Exemplos? Num dos principais diários de São Paulo, primeiro semestre de 1998: “GM cancela investimentos”. A matéria dizia que a General Motors cancelava investimentos de US$ 4 milhões. Era um momento crítico, em que o Brasil recebia o anúncio de que mais de 18 bilhões de dólares seriam investidos aqui por quase todas as montadoras, inclusive várias que não estavam instaladas no país. E nesse clima de euforia, o anúncio da GM era um balde de água fria... As montadoras estão caindo fora! Eu não disse? Mas, no finalzinho da matéria, um comentário: ela (a GM) mantinha os investimentos de US$ 650 milhões da fábrica do Rio Grande do Sul!!! Cancela quatro e mantém 650! O título da matéria era uma verdade. Mas a conclusão a que ele levava, uma mentira. Outra, do mesmo diário e a GM: “GM entra em férias coletivas”. Isso muito antes das coletivas de final de ano. Era a crise! Na matéria, a explicação: as férias eram para 120 funcionários de uma operação fora de São Paulo. Cento e vinte entre quase 20 mil... Título verdadeiro. Conclusão mentirosa. Pouco depois Pelé volta para o Brasil, depois de anos vivendo nos EUA. Sua primeira providência: tornar-se técnico do time da escolinha de futebol do Santos. No primeiro dia, emoção generalizada. Muitos viam ali a cena do grande campeão mundial conversando com garotos que tinham origem muito parecida com a sua. Vários jornalistas antigos chegaram às lágrimas. Manchete do Estadão: “Pelé vive dia de emoção em Santos”. Manchete da Folha: “Juvenil desmaia no primeiro treino de Pelé". Era tudo verdade... um garoto não tomou o café da manhã e passou mal durante o treino. Quem leu a manchete do Estadão viu em Pelé o herói generoso, que dividia com os mais necessitados sua experiência de genial jogador. Quem leu a Folha viu em Pelé o aproveitador, marqueteiro, que usava os garotos para voltar para a mídia... Verdades, verdades... que nos levaram a concluir uma mentira. Uma Ventira. Ou Merdade, que eu prefiro. Os jornais mandam gente embora porque as receitas caíram. Aí, publicam Merdades como essas acima. A gente lê. Entra em surto. Deixa para trocar de carro depois. A viagem de férias é cancelada "esperando pra ver como é que fica". Pára de olhar os classificados. Aí, as montadoras vendem menos. As agências de viagem, idem. E os classificados, ibidem. E a receita do jornal cai. E ele manda gente embora... e assim vamos vivendo neste carrossel do crioulo doido. O Ratinho não põe no ar gente se estapeando? A Carla Perez não põe o tcham de fora? Pois o jornal põe uma Merdade na capa. E vende... Dizem os especialistas que sempre que colocado diante de uma situação dúbia, nosso cérebro opta pela via mais pessimista. Por puro instinto de preservação, herdado dos ancestrais que fugiam das feras na Pré-História. Por isso a atração pelo macabro, pela tragédia, pelo erro, pela via torta... pela merdade. Burrice. E não adianta observar que os economistas sempre erraram a maioria das previsões catastróficas... são as mães Dináh que acertam uma e vivem desse acerto por anos a fio. E os urubus apostam no desastre, jogam contra, só enxergam o risco — nunca a oportunidade. São os espalha-merdades. E ai dos que baseiam suas decisões em merdades. Dá para ser otimista ("otimista é o pessimista bem-informado..." olha o urubu!)? Eu diria realista. Desenvolver nossas idéias próprias. Exercitar a análise crítica. Entender que passamos por um momento delicado, nem pior nem melhor que as crises anteriores, apenas delicado. Saber que se quisermos crise, vamos ter crise, sim. Que temos condições de reagir, de botar ordem na casa, de Construir - em equipe, com lucidez, com Vontade. O resto é papo-furado.

- Capítulo 10 Como o Brasil A grama do vizinho é sempre mais verde. O outro sempre tem mais tempo, é mais jovem, tem mais sorte... e a gente vai levando, sem perceber que _competência é o nome do jogo. “- Segurança. Pronto?” “- Pronto!” “- Escalando!” Lá fui, subindo como uma aranha (um tanto gorda, é certo) pela minha primeira parede no Pico do Jaraguá. Era a primeira aula prática de um curso de escalada em rocha, ampliando meus conhecimentos de montanhismo. Adrenalina, energia, técnica e trabalho em equipe. É muito bom. Eu estava no Pico do Jaraguá, a menos de 20 quilômetros do centro de São Paulo, com acesso fácil e muito conhecido dos paulistas. O lugar é bonito. Estrada bem-cuidada, pouca gente, aquele clima de parque, de natureza, de aventura... até descermos do paredão e nos dirigirmos à área de almoço. O pedaço do parque que o homem fez. Pichações para todo lado. Farofeiros, também. Lá em cima, uma turminha esquisita, na faixa dos 17, 19 anos, fumando algo. E bebendo outro algo. Sujeira, mato não cuidado, construções velhas e pedindo uma reforma urgente, banheiro estilo estádio de futebol (não sei se eu mijo nele ou se ele mija em mim...), mesinhas e cadeirinhas de lata enferrujadas... um horror. E na marquise: Secretaria de Esportes Cultura (ou algo parecido). A mesma coisa acontece no Parque de Itatiaia, a meio caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro. Exuberante. Mal-explorado. Às vezes, incendiado. Outra história, para complementar. Em 1990, passei um período nos Estados Unidos. Num final de semana, fui até Dayton, onde está o Museu da Força Aérea, na Base Wright-Patterson. É um museu fabuloso, com dezenas de aviões e naves espaciais e todo um histórico das guerras nas quais os americanos tomaram parte. Por acaso, fui caminhando próximo a um pai com dois filhos, na faixa dos 12 anos. O pai ia explicando cada objeto, cada painel, cada acontecimento para os garotos. Pude apreciar o impacto que aquela visita estava causando em ambos. Por todos os lados, heróis, histórias de fracasso e sucesso (mais sucesso que fracasso, evidentemente), e uma demonstração inequívoca da força dos Estados Unidos. E os garotos iam entrando direitinho. Na saída, devem ter comprado uma bandeira dos EUA, com muito orgulho. Imediatamente, lembrei de uma visita com meu filho, então com sete anos, ao Museu do Ipiranga, em São Paulo. A coisa mais excitante foi um vaso de barro com um esqueleto dentro... Certamente, não consegui que meu filho saísse de lá com orgulho de ser brasileiro. Vem imediatamente à tona aquela discussão imbecil sobre privatização X estatização. Imagine um lugar como o Pico do Jaraguá, praticamente dentro da terceira maior cidade do mundo, tratado como os americanos tratam seus parques temáticos. Cuidando, preservando, divulgando... Uma corrente vai dizer que vamos entregar o País aos americanos. Outra vai afirmar que o Estado é que deve tirar proveito desses parques. Alguns vão ponderar que só assim os excluídos conseguem ter algum lazer e que a privatização vai tirar o acesso ao cobrar ingressos. Outra insistirá que isso é um retrato da corrupção e incompetência de nossos políticos. Antes da discussão sobre se privatiza ou estatiza, da corrupção, dos interesses escusos, deveríamos tratar da questão da _competência dos brasileiros em gerenciar o País. Temos, talvez, o maior potencial de exploração turística do mundo. E ficamos catando migalhas, atrás até mesmo dos argentinos. Estruturamos mal, divulgamos mal, recebemos mal, exploramos mal, cobramos mal, somos, resumindo, _incompetentes. É impressionante como perpetuamos essa idiotice de discussão sobre privatiza/não privatiza, sob a ótica das ideologias. Na minha pobre visão, é tudo uma questão de _negócios. Um negócio, para dar certo, tem de oferecer um produto ou um serviço no mínimo decente. E tem de gerar receita suficiente para cobrir as despesas e dar algum lucro. Na minha parca visão, a única diferença entre o privatizado e o público é que o primeiro tem de dar _lucro. O segundo tem de cobrir as despesas. Só isso. O resto são _negócios. Gente competente tocando negócios competentes. Seja administrando presídios, autódromos, escolas públicas, hospitais, manicômios ou uma repartição pública. Hoje em dia, tudo são _negócios. Tudo tem _clientes. Mas esquecemos, no Brasil, que a concepção de _cliente é abrangente o suficiente para incorporar os freqüentadores do parque estadual, do museu, da escola, do hospital. Na nossa medíocre visão, cliente é o cara que vai ao bar e pede um sanduíche. Não é a família que procura o parque do Ibirapuera ou o Parcão, em Porto Alegre, para passar algumas horas na tarde de domingo. Essa falta de visão, mistura de interesses e clientelismo, leva à designação de gente que não é profissional, não é do ramo, macacos errados em galhos certos, para os _negócios públicos. E dá no que dá. Nenhum compromisso com os clientes, com o retorno, com a cobertura das despesas, com a qualidade de atendimento, com a simples manutenção do que é público... Que raio de povo é este que teima em colocar gente que não é profissional, que não é do ramo, que não conhece _Gerenciamento, que não sabe pensar em longo prazo, na direção dos negócios públicos? Aliás, o que é que o povo tem a ver com isso? Tem muito a ver Quando não reclama das condições de atendimento. Quando não se preocupa em saber quem foi o maldito que colocou o incompetente lá, e o reelege. Quando não briga para ter um serviço ou produto decente. Quando se acostuma a correr atrás da boiada. Quando se deixa nivelar por baixo. Olha, trepar naquele paredão não é mole. Saí de lá arranhado, esfolado, cansado, atordoado até. E, durante a subida, lembrei do Brasil. Como o Brasil, eu tinha o equipamento, o instrutor, a teoria e a vontade de subir. E fui subindo. No final do dia, como o Brasil, eu cheguei lá. Todo arrebentado. Do meu lado, o instrutor, leve e solto, descansado e como se tivesse usado uma escada. Olhei para ele. Olhei para mim. E, como o Brasil, exclamei: “Ah, mas ele é mais magro. Ele é mais jovem. O equipamento dele é melhor. Ele tem mais experiência. Ele começou há mais tempo. Ele _treinou... Como o Brasil, terminei o meu dia tomando umas cervejas no barzinho da esquina, comendo uns trecos gordurosos e falando da bunda e da Sheila Carvalho. Diferentemente do Brasil, o instrutor continuou treinando. Aí, passou duas horas checando, organizando e guardando o equipamento. Ah, o Brasil...

- Capítulo 11 Homenagem ao Malandro Cada povo tem os heróis que merece. E brasileiro idolatra resultado, não importando os métodos para atingi-los. Resultado? Destruição sistemática de valores que nos são caros. Ano de eleição, 2002. E qual é a grande discussão popular? Se vai dar Casa dos Artistas ou Big Brother Brasil. Eu, como brasileiro e também alcançado pelo fenômeno do “voyeurismo” coletivo, não posso deixar de comentar a respeito. Mas quero focar meus argumentos num fato pouco explorado. E que representa com todas as tintas a nossa cultura brasileira. A coisa começa com alguém conhecendo uma fórmula de programa de tevê criada por holandeses. Botar um monte de gente trancada numa casa e acompanhar com câmeras, ocultas ou não, o lento processo de desintegração das relações entre o grupo, até que apenas uma pessoas reste para ganhar o grande prêmio. Simples e genial. Quem é que não gosta de bisbilhotar a vida alheia? Ou de contar uma fofoca? Pois bem, o SBT tenta adquirir os direitos. Os holandeses cobram muito caro. O SBT desiste. Entra a Globo no circuito e compra a idéia. Nada me tira da cabeça de que o fez para não deixar que outros canais usassem ou para, no máximo, transformar o programa numa daquelas porcarias de quadros de games do Domingão do Faustão. Aí, Silvio Santos decide que vai copiar a idéia. Implementa modificações. Em vez de anônimos, num lance genial, coloca quase-famosos. E aplica ao programa tudo aquilo que aprendeu em quase 50 anos de tevê. Resultado: sucesso estrondoso. A Globo, dona dos direitos, entra na Justiça. Acusa o SBT de plagiar a idéia cujos direitos a ela pertencem e vai perdendo, sentença após sentença, não conseguindo tirar o programa do SBT do ar e amargando uma derrota fragorosa nos domingos do Fantástico. A toque de caixa, exibe o Big Brother Brasil, uma das mais evidentes afirmações de como, na Globo, a forma é mais importante que o conteúdo e o controle impõe-se sobre a criatividade. Apanha de novo, da espontaneidade, da informalidade, da empatia de Silvio Santos. Só vai ganhar na final, depois de semanas de derrotas. Colocado o histórico, onde quero chegar? Naquela demonstração do caráter brasileiro. Tudo começa com um ato (pelo menos aparentemente) ilegal. Ou, no mínimo, anti-ético, quando o SBT copia uma fórmula que não lhe pertence, larga na frente e emplaca um formidável sucesso. Tem todos os méritos, mas não invalida a tese de que na raiz do sucesso, está um ato não-ético. E ninguém tocou a fundo nessa prática. Pelo contrário, a população parece torcer pelo Silvio contra a magnânima Rede Globo, usando como arma uma operação anti-ética. Nasce de uma burla da lei. É espetacular e ganha vida própria. E os brasileiros aplaudem a operação e a estratégia, sem questionar a legitimidade do ato de copiar e não pagar. E a Globo paga pelo excesso de confiança, pelo exercício bruto da força político-econômica, pelo esmagamento da concorrência, pela falta de flexibilidade em mudar, pela arrogância. O povo perdoa o ato ilegal, desde que o resultado seja a derrota do grande inimigo. O povo odeia a Globo? Evidentemente que não. Mas o povo quer ver o pequeno triunfar. Derrubar o gigante. E fecha os olhos para a ética. Aliás, perdoa a falta de ética. E louva a malandragem. O povo quer na seleção o jogador de comportamento indisciplinado, para dizer o mínimo, e é capaz de fazê-lo um herói mesmo que ganhe a copa num pênalti cobrado com a mão. A falta de educação, de respeito para com os companheiros e o técnico, de obediência às regras estabelecidas, isso tudo é detalhe pouco importante, diante da perspectiva do gol. Na corrida para a Presidência, malandragem para todo lado. A candidata que sobe ao topo das pesquisas aparentemente utilizando malandragem, é derrubada por um ato de malandragem de seus inimigos. O partido da candidata, malandro, rompe (mas não rompe) com o governo. O governo, malandro, diz não ter nada a ver com isso. E a defesa ataca o comportamento malandro de quem descobriu a jogada anti-ética do dinheiro guardado no tal cofre. O delito fica em segundo plano. A discussão passa a ser a perseguição à candidata... Esse tipo de comportamento é divertido e nos dá situações saborosíssimas como a Casa dos Artistas contra a Globo, PFL contra o mundo e Romário contra Felipão, só para ficar nos exemplos recentes. Mas também é perigoso. Essa aparente divertida complacência para o desvio ético, para o fim que justifica os meios, é a mesma que permite o surgimento de um Jader Barbalho, um Eurico Miranda, um Sérgio Naya, um Nicolau... Essa mesma complacência perdoou Ricardo Teixeira, principalmente após ganharmos a Copa. A malandragem, que durante muito tempo foi aquela coisa pitoresca, engraçada, criativa e alegre, evolui para algo mais sério. O malandro, que era divertido, passa a ser perigoso. Faz o brasileiro acreditar que existe uma diferença entre o pequeno e o grande delito. Faz o brasileiro aceitar uma ética flexível, que serve aqui, mas não se aplica ali. Cria exemplos nos quais as novas gerações vão se espelhar. Invade a mídia com uma força descomunal, transformando em heróis até mesmo seqüestradores que deveriam ser esquecidos antes de terem nascido. Estou pensando em lançar um movimento para mudar o slogan da bandeira nacional para Ordem, Progresso e Malandragem.

- Capítulo 12 O Problema e a solução Se quem faz as cabeças não tem compromisso com o povo, com a cultura, com a educação, nosso destino é um só: a mediocridade. Assistindo a uma das dezenas de mesas-redondas nos programas esportivos de domingo à noite — o pau quebrando a cada segundo, com cada um defendendo seu time — lembrei-me das entrevistas dos candidatos à Presidência na mídia, na eleição de 2002. Jamais se viu tamanha agressividade por parte dos entrevistadores, com perguntas e acusações colocando os candidatos em conflito e na defensiva. Tudo bem, ninguém quer entrevistas medíocres, com perguntas idiotas ou respostas evasivas. Queremos um diálogo inteligente, em que idéias sejam confrontadas e do qual saiamos mais enriquecidos do que entramos. Mas o que se vê? Confronto. — “Eu estou certo, você está errado!” Indivíduos que criticam ou são pessimistas parecem mais inteligentes do que os (bobalhões) que elogiam ou têm posição otimista. Mas a mídia anda exacerbando, como se houvesse uma competição para ver quem é o jornalista com maior poder de destruição. Me incomoda essa posição opiniática chegando à raia da falta de educação. Tenho restrições a alguns candidatos, mas nem por isso estou disposto a vê-los ridicularizados ou maltratados pela mídia. Tenho uma tese que defendo com unhas e dentes: a solução — e o problema — do Brasil é a mídia. A mídia, criando mitos e modas, é solução quando investiga com seriedade e ética, dissemina as melhores práticas e combate as piores, educa e motiva para o conhecimento. Quando exibe as mazelas, mas aponta as responsabilidades e as possíveis soluções, de forma positiva. Quando critica, mas constrói. Quando erra, mas assume. A mídia é problema quando exibe as mazelas pelas mazelas, pois dão audiência. Quando tripudia sobre a ética. Quando permite que a mediocridade e a ignorância sejam adotadas como padrão estético ou de comportamento. Quando discute a forma e esquece o conteúdo. Quando é mal-educada e deseduca. Quando esquece as lições do passado e repete velhas fórmulas e velhos pensamentos, emburrecendo o País. A imprensa também era usada antigamente para construir fortunas e conquistar poder político. Mas, pelo alcance limitado, pela demora na distribuição, pela necessidade de saber ler e entender que a imprensa escrita exigia, seu impacto era restrito. Mesmo o rádio, que só prescindia da capacidade de ouvir, tinha no entretenimento seu grande poder. Hoje, até mesmo um analfabeto liga o televisor e pensa que entende. Tudo é superficial. E esse superficialismo explica as dificuldades do Brasil. Ele torna possível que velhos bandidos disputem — e ganhem — eleições. Que música, literatura e “arte” de péssima qualidade vendam milhões. Que a violência seja utilizada como ferramenta para dar audiência. Que mentiras sejam disseminadas como verdades... O problema do Brasil é a mídia? Pois a solução também.

- Capítulo 13 O Legista A nossa incapacidade de antecipar as tendências, de planejar a médio e longo prazos, provocando a tomada de decisões medíocres. E se eu fosse um legista? Seria frustrante ter formação em medicina, para salvar vidas, e ter uma sensação de impotência, de desespero, de agonia pela incapacidade de ajudar meu “paciente”. Pois sabe que nos nossos negócios acho que somos todos legistas? Passamos grande parte do tempo diante de situações irreversíveis, examinando do que morreu o mês, o processo, o negócio, o acordo, o resultado... Passamos a vida registrando quanto foi a venda do período, o lucro, as despesas, quanto comprou o fulano, qual a participação de mercado... tudo no passado... como um legista, procurando saber do que morreu o infeliz. Por que essa dificuldade em utilizar indicadores que reflitam a tendência dos negócios ANTES que o leite seja derramado? Essa incapacidade de encontrar indicadores que reflitam para onde vai — e não apenas de onde vem — nosso negócio? Contar, medir, somar, subtrair, dividir ou multiplicar é fácil. Mas tirar conclusões, pensar, elaborar cenários... definir os indicadores corretos, tirar o foco daquilo que é tangível, evidente e superficialmente correto... é outra coisa. Transformamos os números em verdades, manipuladas como se fossem absolutas, imaginando que as coisas são estáticas, esperando para serem medidas, comparadas e relacionadas... Mas, hoje, o que está estático? Como definir em números as interações complicadas de nossas vidas? Números simplificam situações complexas e são considerados verdade absoluta. As pessoas tornam-se tão bitoladas pelos números que perdem a confiança em seus instintos. Ficam iludidas diante da sensação de autoridade e conhecimento. Tornam-se meros joguetes nas mãos dos hábeis manipuladores de números, que jogam cifras, estatísticas e percentuais em nossas caras a cada segundo. E nós, intimidados, entramos no discurso da seriedade dos números. Números transformam-se na trincheira da incompetência, da burocracia, da insegurança, do imobilismo, da aversão à inovação, da manutenção da rotina. Medir coisas significa defini-las. Pensem no recente ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. Pelos números, a tragédia resume-se a três mil mortos, algo que está muito longe de representar a verdadeira dimensão do ataque. Mas “números não mentem jamais”. Números são confiáveis, palavras, não. Mergulhamos nas estatísticas e viramos donos da verdade: - “Esta sala tem 50 homens e 50 mulheres. Logo, estatisticamente, cada um tem um testículo.” Lula sobe dois pontos. Serra cai um. Ciro sobe 2. Garotinho está estático. Mas ninguém comenta que 49% dos consultados ainda não sabem em quem vão votar. E dá-lhe páginas e mais páginas, horas e mais horas, discutindo uma estatística que quase nada vai gerar, além de assunto para vender jornal... Podemos contar consumidores e eleitores indefinidamente. Mas jamais encontraremos dois consumidores exatamente iguais. Quanto mais nos apoiamos em números, mais a verdade escapa, porque cada pessoa, cada coisa, cada acontecimento é único e imensurável. Disse Albert Einstein: “Nem tudo que pode ser contado, conta. Nem tudo que realmente conta, pode ser contado”. Sem saber medir a pobreza, medimos a riqueza. Sem saber medir a inteligência, medimos o Q.I. Sem saber medir o sucesso, medimos o dinheiro. Sem saber medir a competência, medimos processos. Sem saber medir satisfação, medimos rapidez da entrega. Sem saber medir qualidade, medimos problemas por milhão. Cegos pelos números, saímos desesperadamente atrás de ISOs, QSs e outros programas de certificação da qualidade que estão na moda, apoiados em números, que parecem ser a solução para nossos problemas. Mas não percebemos que esses programas apenas garantem, a quem produz merda, a capacidade de produzir merda com qualidade consistente e processo confiável. Não bastasse a incompetência em estabelecer o que medir, ainda por cima somos legistas. Medimos o passado. Examinamos o que aconteceu, depois de acontecer. Meu amigo, se você é um desses legistas, tome cuidado. No mundo real o próximo estágio é coveiro. Adivinhe quem vai ser o defunto?

- Capítulo 14 Os Velhinhos Nossa visão medíocre vendo velhice onde outros enxergam experiência. Eu vi a cena na tevê. Terrível. A empregada espancando a anciã indefesa. Nós, com a energia dos 30, 40, 50 anos, não entendemos como alguém pode ficar à mercê de uma agressão, como se fosse um bebê. Será que é assim que se envelhece? Minha cabeça foi a mil. Me senti dentro do táxi, vendo o cartaz que anunciava “dia 22, Buena Vista Social Club”, ao vivo, no Auditório Nacional, em frente ao hotel onde eu me hospedava, na cidade do México. O Buena Vista era uma espécie de gafieira em Havana, Cuba, nos anos 50. Respirava música, e grandes nomes do som cubano lá tocaram. Com a mudança do regime, o clube acabou e os músicos dispersaram-se, a maioria virando pedreiro, engraxate e vivendo de bicos por 40 anos. No final dos anos 90, Ry Cooder, um músico norte-americano, descobriu o som deles. E decidiu reunir os sobreviventes para um CD e para um documentário dirigido pelo prestigiado Win Wenders. A reunião de antigos companheiros, vários deles com mais de 90 anos, é emocionante. E o som por eles produzido, mais emocionante ainda. O CD é imperdível e o documentário é indispensável. No dia certo, na hora certa, eu estava na fila de entrada. É difícil explicar um auditório para 10 mil pessoas. O maior que eu havia visto tinha sido o Radio City Music Hall, em Nova Iorque, para 6 mil pessoas. O palco, simples. Todos os instrumentos colocados na formação clássica de uma grande banda de jazz, com uns 20 ou 30 músicos. Entrou a banda. O som inebriante, dançante, espetacular. E, aos poucos, chegaram os integrantes principais, Com 70, 80, 90 anos. O público delirava a cada acorde, a cada solo. Lá pelas tantas, todos retiram-se. Restam Omara Portuondo, com seus 70 e poucos anos, e o pianista. Ela explica que eles vão fazer uma homenagem a Ruben Gonzales, o pianista octogenário que, até sofrer recentemente um derrame que o deixou paralítico e com o cérebro comprometido, era o titular absoluto da posição no grupo. Omara diz o nome da canção: Besame Mucho. Eu fiquei decepcionado. Já ouvi essa canção tantas vezes e de tantas maneiras, que aquilo não seria novidade. Ledo engano. - “Besame, besame muuuchooo. Como se fuera esta noche la última vez”. Omara cantava e o pianista dedilhava uma mistura de bolero com jazz. Era inacreditável. E aconteceu ali algo que eu só tinha experimentado num show de João Bosco, anos atrás. A troca de olhares entre o pianista e a cantora. Os movimentos corporais de cada um. A forma como a melodia tomava conta do ambiente... Eu tive a nítida impressão de que o pianista começou a flutuar, a levitar, como que acompanhando a fluência da música. Percebia-se no ar que aquelas 10 mil pessoas assistiam a um momento sublime, quando homem, mulher, piano e microfone transformaram-se numa coisa só. Envolvidos pela música, formaram uma massa que preencheu todos os cantos do ambiente, elevando-nos a alma, os sentidos. Prazer. Sem ninguém gritando. Sem sangue. Sem palavrões. Sem gente pelada. Sem violência. Sem efeitos especiais. Só poesia e música. Produzida por velhinhos, alguns quase centenários, como aquela anciã que apanhava na televisão... Os idosos cubanos me deram prazer. A anciã brasileira me deu pena. E me fez refletir sobre a minha velhice. Para que lado estou indo? Como estou me preparando? O que estarei produzindo aos 80, 90 anos? Prazer, como os cubanos? Ou dor, como a velhinha que apanhava? Não sei. Mas desde aqueles minutos em frente à televisão o meu CD do Buena Vista Social Club ganhou outro sentido.

- Capítulo 15 Com quem será? A repetição de fórmulas desgastadas, pouco criativas e mecânicas, mediocrizando nossa vida um pouquinho a cada dia. É dia de celebrar os aniversariantes do mês. Almoço especial. E os chefes convidados para a comemoração no restaurante. Um bolo é oferecido pela empresa que tem a concessão do restaurante. Bandeirinhas coloridas. Velinhas. Presentinhos. No final do almoço, todos para trás da mesa, alinhados. E vamos lá: “Parabéns pra você, nesta data querida...” Sorrisos automáticos. “E pro Luciano, nada? Tudoooo... então cuméquié? Éééééééééé...” Que cara a gente faz nessa hora? Cara de filho? Não há o que pague ver a carinha de nossos filhos, quando pequenos, curtindo a festa, a bagunça, a velinha que não apaga, o Parabéns a Você. Cantamos com toda força, batemos palmas, enquanto aquele rostinho desmancha-se em prazer. Depois, sopramos a vela junto, cortamos o bolo junto, abraçamos aquelas coisinhas e desejamos, do fundo da alma, que tenham todo sucesso do mundo. Amamos nossos filhos e por isso provocamos aquele cerimonial, com prazer, com alegria, com energia. Quando nossos filhos vão crescendo, essa comemoração vai-se modificando, perdendo o sentido, em alguns casos, ou virando uma curtição, em outros, com bom humor e alegria. Mas sempre no seio da família, rodeados dos parentes e amigos mais chegados. Gente que nos conhece lá no fundo, que nos entende só de olhar. Mas, na empresa? Por que a cerimônia é sempre organizada como se os marmanjos fossem crianças de quatro anos? Que cara se faz na hora daquela festa arranjada, fora do dia do nosso aniversário, junto com gente que, apesar de próxima, está longe de ser próxima? Meio sem jeito, cantamos, batemos palmas, ficamos em pé atrás da mesa, esperando o bolo cortado, recebendo parabéns... Não sei. Sou absolutamente cético com essa mania de tratar empregados como se fossem crianças. Ou débeis mentais. Conversinhas, liçõezinhas, textinhos... “Vem aqui com a titia, me dê a mão e vamos brincar...” “Eu preferia comer a titia.” Não é assim que você se sente com determinadas cerimônias que a convenção do mundo dos negócio impõe? A festa para comemorar tempo de serviço, por exemplo. Fulano completou cinco anos. Cicrano 10. Beltrano 40... É necessário ressaltar esse momento? Claro que sim! O problema é: como? E tome o almoço organizado pelo RH, a chamada aos nomes, a plaquinha, o reloginho... E, às vezes, o chefe falando como foi importante... enquanto o Mané olha pra trás e vê os 40 anos que se passaram representados pela canetinha com o logotipo da empresa... Eu quero morrer. Participei de duas ou três festas do aniversariante no mês do meu aniversário. E jurei nunca mais, por me sentir ofendido. Pessoas têm sentimentos, têm cultura, têm maturidade. Precisam ser tratadas como seres pensantes. Têm de participar de cerimônias que elevem seus espíritos, que agreguem valor ao motivo da comemoração, onde sintam-se à vontade e recebam cumprimentos sinceros e não protocolares. Cerimônias nas quais a energia reinante seja natural, espontânea, e não resultante de um roteiro, uma regra, um modelo exaurido. Mas sempre foi assim! E, se sempre foi assim, deve estar certo! Pois é... Então, vamos lá: - Com quem será? Com quem será? Com quem será que o Luciano vai casar?

- Capítulo 16 O Bravo Vigilante De noite ou de dia Firme no volante Vai pela rodovia O bravo vigilante... Devia ser 1963 ou 1964. Eu tinha uns oito anos e estava, como outras centenas de garotos, extasiado no Cine São Paulo, em Bauru, na estréia de um longa-metragem do Vigilante Rodoviário, em preto e branco. Após o filme, o inspetor Carlos Miranda, o Vigilante em pessoa, subiu ao palco do cine São Paulo. Eu, pequenininho, tenho na memória um palco gigantesco, muito alto. E aquele que era meu herói, com a farda cáqui e seu fiel escudeiro, Lobo — um pastor alemão que era o xodó da garotada — eram como seres mágicos. O Vigilante trazia em suas mãos uma miniatura de seu Simca Chambord. Ia sortear para a garotada. Acho que nunca desejei tanto na vida ganhar um sorteio. A miniatura não saiu para mim, mas aquele momento está gravado em minha mente, vivo, quase 40 anos depois. Eu adorava o Vigilante, e cantava o dia todo: Guardando toda estrada Forte e confiante É o nosso camarada O bravo vigilante E como a vida da gente é cheia de surpresas, me ego, em 2001, diante da oportunidade de criar uma exposição sobre os 50 anos da televisão brasileira: JANELA MÁGICA, como parte do projeto Dana Cultural. E acabo conhecendo o inspetor Carlos. O mesmo sorriso simpático de 40 anos atrás. A mesma figura imponente. A mesma farda... rodeado de quarentões, todos emocionados. E conversa vai, conversa vem... em novembro de 2002, participo da inauguração do estande da Dana no Congresso da SAE – Society of Automotive Engineering do Brasil. E a estrela é o Simca Chambord do Vigilante, reconstruído, item a item, com patrocínio da Dana e coordenação da minha equipe. Ver o inspetor Carlos sentado em minha sala, contando as velhas histórias, foi um momento de profunda emoção. Eu proporcionando ao meu antigo herói ter de volta seu carro fantástico, numa espécie de “reconhecimento” pelos momentos de sonho e aventura que ele me deu... Quando ele foi embora, fiquei mentalmente cantando: O seu olhar amigo É um farol E avisa do perigo Ao término da abertura do congresso, despeço-me do Vigilante e caio na estrada para enfrentar três horas e meia de viagem até outro evento. Já no escuro, embalado — mas dentro dos limites de velocidade — me aproximo de um posto da Polícia Rodoviária. Um policial com a lanterna dá sinal para parar. - “Boa noite, seu guarda” — eu disse olhando o vigilante, que devia ter seus 40 e muitos anos. - “Boa noite. Luz queimada, é? Isso dá multa de cento e quarenta e poucos reais.” Entrego os documentos ao policial e vou olhar. Uma das lâmpadas do farol, em luz baixa, está queimada... - “A multa é alta... mas ainda bem que a empresa paga, não é?” - “Não é bem assim, seu guarda” — disse eu, estranhando o comentário. - “Ei. O que é isto?” Estarrecido, sob o facho da lanterna, leio na minha habilitação a frase: EXAME MÉDICO - 25 DE JUNHO DE 2002. - "Tá vencido. A multa é de mais de R$ 200 . E vou ter que apreender sua carteira!” Foram cerca de 20 minutos de encenação, incluindo um telefonema fingido (e mal) de consulta sobre minha habilitação. E alguém do outro lado da linha (que logo imaginei estar na outra sala do posto policial) dizendo que eu estava com mais de 31 pontos na carteira (e isso só na primeira página). - “A coisa é grave” — disse aquele vigilante rodoviário, com ar circunspecto — “mas quero te ajudar...” Eu ali, na estrada... de noite... um evento com 200 pessoas me esperando... num dos nossos principais clientes... Saí de lá vários reais mais pobre, entregues ao policial para que eu pudesse retomar a viagem. Eu estava errado e a opção era ficar na estrada, de noite, sem habilitação, me virando. Ao pagar a “multa”, reparei o policial com o braço cheio de pulseiras de ouro. E correntes de ouro no pescoço, como uma moldura para aquela tremenda cara-de-pau... Que ironia... à tarde, o Vigilante era meu herói, à noite, meu algoz. Eu que havia voltado a ser criança, com os sonhos e o deslumbramento da inocência, fui escarrado de volta à idade adulta. Corrompido, com a hipocrisia e a violência da autoridade. Num teatro do qual faço parte... Entrei no carro e segui, em conflito comigo mesmo. Audaz e temerário Pra agir a todo instante Da estrada é o vigilante Vigilante rodoviário Olha, eu juro por todos os santos que preferia mil vezes o Vigilante em preto e branco, na telinha com imagem ruim da televisão de 1963. A versão antiga, despojada, com o Simca Chambord reluzente e seu fiel escudeiro Lobo, era heróica. A atual, com pulseiras douradas, viatura caindo aos pedaços e comparsa escondido na sala ao lado é patética. De noite. Ou de dia.

- Capítulo 17 Vestindo a Camisa Tem gente que defende um negócio. Faz tudo certinho... mediocremente aguardando o salário no final do mês. Tem gente que defende uma causa. Revoluciona. E espera muito mais que um salário no final do mês. “Nunca recebemos um tostão para jogar pela Seleção Brasileira de Basquete” — dizia Oscar Schmidt, em entrevista à Marilia Gabriela. Ele falava de seu maior orgulho: vestir a amarelinha da Seleção. E corrigia, depois: “No Pan-Americano recebemos, sim. Quinhentos dólares. Eu preferi não aceitar. Acho que poder dizer que sempre jogamos sem receber nada vale mais que aqueles US$ 500.” Outra confissão: aqueles gigantes de mais de dois metros voavam na classe econômica. Por nove, 15, 20, 30 horas! Tudo pelo amor à camisa... Vi o tempo todo o brilho dos olhos de nosso experiente campeão. Um jogador com esse nível de comprometimento e motivação faz toda a diferença no time, como Oscar cansou de demonstrar. Dentro das empresas, o velho e surrado discurso sobre “vestir a camisa”, passou a ter uma conotação negativa a partir do surgimento de novas teorias administrativas, que colocaram os interesses do indivíduo em primeiro plano. No caso do Oscar, a situação é real: ele fazia de tudo para vestir a camisa da Seleção. Mas não se tratava só do “vestir a camisa”. O que ocorria com Oscar é algo que alguns dos gurus da administração chamam de “defender a causa”, e não apenas “defender o negócio”. Quem defende uma causa é o revolucionário. Impossível deixar de remeter o pensamento a Che Guevara, que dedicou sua vida à defesa de uma causa, a ponto de ser morto na Bolívia, lutando por um povo que não era o seu. Oscar defendia a causa do Brasil. Defendia a idéia de mostrar ao mundo a capacidade do brasileiro. Em quadra, ele não estava apenas jogando um jogo, defendendo uma equipe. Em quadra, ele era o Brasil. A ponto de sacrificar-se pelo ideal. Eu fiquei imaginando se seria possível uma entrevista como aquela feita com Romário, Rivaldo, Ronaldo ou Roberto Carlos. Craques da bola, profissionais de altíssimo nível, campeões do mundo. Será que eles viajariam 30 horas na classe econômica, sem ganhar nada, sem seguro, pelo puro prazer de defender a Seleção? Deixo a você a conclusão... E nas empresas? O que significa “defender uma causa”? Afinal, que tipo de causa pode haver no processo de fabricar e vender um produto ou serviço e dar lucro para o patrão ou acionista? Essa é uma explicação difícil. Principalmente num mercado onde somos todos jogadores de futebol, prontos a mudar de time se o passe for valorizado. E mal chegamos no time novo, vamos logo beijando a camisa no primeiro gol... O amor pelo time existe enquanto uma proposta melhor não surgir. Lembram-se da recente situação com Ricardinho que, de ídolo corinthiano passou a são-paulino numa questão de horas? Seria mais bonito se ele tivesse dito NÃO e permanecido no time que defendia com unhas e dentes, não é? E o jogador, está errado? Eu diria que não. Ninguém pode ser criticado por buscar uma condição melhor de vida. Mesmo que à custa de um idealismo que, nos anos 40, tornava impossível que um ídolo de um time fosse comprado por outro. Nas empresas, não era diferente. A turma entrava para ficar a vida toda. E tinha o maior orgulho em dizer que estava completando 30 anos de empresa... Hoje, alguém que tem mais de cinco anos no mesmo emprego é olhado com desconfiança pelos headhunters. “Esse aí deve ser um acomodado!” Como se fosse impossível combinar o desenvolvimento profissional, o crescimento pessoal, com a estabilidade num mesmo emprego. Me pergunto, então, sobre os valores que o Oscar tanto reforça em sua entrevista: o amor ao que faz, o apego a uma causa, o comprometimento com algo mais que o salário no final do mês. E concluo, entristecido, que esses valores não nos servem mais. Estão ultrapassados. Já eram. Foram-se. Acabaram. Nesse sentido, a entrevista do Oscar passa a ser emblemática. Nos parâmetros de hoje, Oscar seria considerado um... amador. O sujeito que faz a coisa por amor, que defende uma causa e que não busca recompensa monetária. E, com espanto, concluo: - Um profissional, jamais agiria assim... Mas que profissional é esse?

-Capítulo 18 Ary Potter Mediocremente focando em resultados, no curto prazo, sem capacidade de olhar para os lados, de enxergar o mundo em cores e os valores intangíveis, vamos gerenciando nossos negócios frios e calculistas. Sem alma. Bauru, 1965, eu tinha nove anos e me lembro do Ari, o contador. Magro, debruçado sobre livros, calculando números que estavam muito longe de minha compreensão. Trabalhava para o meu tio. Aos meus olhos de menino o Ari era um mago, com aquele livro cheio de colunas, lançamentos aqui, baixas ali... era ele que fazia a coisa ir bem ou mal conforme o desejo do meu tio. Abria o livro, mudava uma conta, apagava um número... e pronto! Meu pai dizia que, na sua época, ser contador fazia parte do sonho da garotada, assim como ser professor, advogado ou doutor. Ari, o mago da matemática! Anos 90. Cresci, entrei no mundo dos números e pude entender que o que o Ari fazia não eram mágicas. Eram truques! E reencontrei o Ari. Aprendeu a falar inglês, deixou de ser contador, virou controller. Visitou um numerólogo e mudou o nome para Ary. Ary Potter. O velho Ary estava terrível, agora globalizado. — Deu lucro? — Depende. — Depende? — Depende... Meu caro, no mundo dos negócios, nem sempre um mais um são dois... tudo depende. Diante dos meus olhos, o mago misturava um pouco de depreciação com uma pitada de ativos diretos, mais uma dose de despesas não recorrentes... e transformava água em vinho. E o Ary não era o único. Havia um exército de Arys. Logo reparei que a coisa estava se alastrando. O discurso dos políticos mudou. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central tinham mais espaço na mídia que o da Educação e o da Saúde juntos! Figuras de terno dominavam os jornais, rádios e tevês com um discurso parecido com aquele do Ary, cheio de debêntures, superávit primário, taxa de risco... era uma invasão! Mas algo estava errado. Não era possível que uma empresa que produzia coisas estivesse em dificuldades, ano após ano, enquanto os bancos, que apenas deviam guardar o dinheiro de quem produz coisas, batiam recordes de lucros! Logo entendi... os Ary haviam tomado de vez o poder. No mundo! Aí veio a onda das pontocom e a tal nova economia que usou a ignorância generalizada para manipular os números até mostrar que de nova só tinha o nome... os Arys enlouqueceram. Pouco depois vieram a Enron, a WorldCom, a Merka AOL... E o mundo explodiu em hipocrisia, com expressões de horror e susto diante do escândalo dos crimes de manipulação de números. Não sei o que é pior, os crimes em si ou a avalanche de declarações a favor da ética nos negócios por parte de quem motivou, estimulou e tirou proveito da tal falta de ética. Hipocrisia. Vendo seus ídolos caindo, Ary não resistiu. Teve um treco. Ontem, visitei-o. Em seu leito de morte, orava. Acionista nosso, que estais no céu Santificado seja o vosso nome Venha a nós o vosso dinheiro Seja feita a vossa vontade Assim na terra, como no céu... Morreu em meus braços. E, no bolso do pijama, rascunhado em letras trêmulas, seu último pedido. O texto para sua lápide. Aqui jaz Ary Potter. Deixa o mundo infeliz. No coração, um cifrão, Mas no banco, um milhão. Descanse em paz, Ary.

- Capítulo 19 Cadê os Brasileiros? Ser egoísta também é ser medíocre. A falta de espírito cívico, comunitário e nacionalista como alavancador das crises no Brasil. Vocês repararam no que aconteceu nas semanas após a eleição do Lula? Deram um pulo no supermercado? Encheram o tanque? Eu trabalho numa indústria de autopeças. A matéria-prima mais importante é o aço. Pois pergunte o que é que aconteceu... Aço, papel, químicos: foi só passar a eleição e os grandes cartéis saíram da toca. Aliás, saíram MAIS da toca. E, como vampiros sedentos, voaram na jugular dos clientes, metendo-lhes aumentos sobre aumentos, que chegam em alguns casos a mais de 100%. A situação nas autopeças está no limite da ruptura. Os grandes cartéis aplicam o aumento que querem, e os clientes, as montadoras, não aceitam repasses. As autopeças ficam no meio, pressionadas... esperando o apagão da falta de investimentos. Ao tentar diálogo com os cartéis, o tratamento é o pior possível. Tipo: “Pega ou larga. E anda logo que tenho mais o que fazer.” Não deve ser diferente em outras indústrias da transformação, que dependem dos grandes fornecedores de matéria-prima. E sobe o açúcar, o pão, a gasolina, o gás, o arroz, a carne. E sobem os serviços, as passagens. É muito esquisito. Tudo aumentando ao mesmo tempo. E muito. Levando o velho e temido dragão da inflação para as nuvens... Estão armando algo para o Lula? Pode ser. Uma grande conspiração para entregar um Brasil completamente desarrumado para o novo presidente. Talvez para ter o prazer de ver um petista implementando, como primeiro ato de sua gestão, o controle de preços... Mas eu acho que não é isso, não. Ninguém é tão burro a ponto de forçar conscientemente uma reação como essa. Acho que estamos vivendo uma crise reprimida. A crise da falta de brasileiros. Não “brasileiros” no sentido geográfico do termo, mas nos valores, no coração, no sentido do nacionalismo, mesmo. Estamos vendo a face mais dura, hipócrita e suja daqueles que se dizem, da boca para fora, preocupados com o País. Alguns deles, ao lado de Lula, pregando o “agora vai”, resplandecendo em frente às luzes da tevê enquanto, nos bastidores, instruem seus asseclas a aumentar os preços e levar toda a vantagem que for possível. Criam uma cascata de aumentos que vai pressionar a inflação, reduzir margens, gerar desemprego, continuar a parar o Brasil. Exatamente no momento em que mais precisávamos de uma trégua, de uma transição calma, de um período de recuperação psicológica, para entrar no ano novo, governo novo, com esperança. Mas, não. Surgiu a oportunidade de ganhar mais? As exportações estão aquecidas? Aumente o preço. “Se não puderem ou quiserem pagar, a gente exporta. E recebe em dólar, e não nessa porcaria de real.” E o que é que eu, brasileiro, posso fazer além de ver a perda de poder de meu salário e o aprofundamento da crise? Somente gritar, com todas as forças: Cadê os Brasileiros? Brasileiros que entendam que não é hora de explorar brasileiros. Que entendam que o papel de uma empresa é maior do que fazer lucros. Que entendam que existe um compromisso social com o País onde vivem. Que entendam que de suas atitudes, como empresários, líderes e _brasileiros, depende o nosso futuro. Cadê os Brasileiros? Capazes de aceitar que há momentos em que temos de deixar de ganhar, momentos em que temos de perder para ganhar mais na frente, momentos em que os valores mais básicos têm de ser colocados acima dos valores monetários. Cadê os Brasileiros? Capazes de doar um pouco do seu, da sua empresa, do seu resultado, em prol de algo maior, capazes de manter sua dignidade enquanto os outros exibem ávidos sua face mais mesquinha, capazes de esperar, de ter paciência, de pensar em longo prazo. Cadê os Brasileiros? Capazes de se emocionar com o momento político, com os que pouco ou nada têm. Capazes de assumir um compromisso com o futuro coletivo e não apenas com o seu. Capazes de entender que vivemos em comunidade e que somos causa e conseqüência da situação atual. Cadê os Brasileiros? Que não sejam mesquinhos, ambiciosos, desonestos, desumanos, hipócritas. Que sejam líderes, visionários, generosos, positivos, que pensem nos brasileiros. Cadê os Brasileiros? Se encontrá-los, por favor, acorde-os. Diga que corram.Que ocupem suas posições de decisão e liderança. Que nos salvem desses outros infelizes, amargos, dissimulados e falsos... brasileiros.

- Capítulo 20 O Poblema Aprendendo pouco com quem sabe pouco. Disseminando a prática do meia-boca. A mania do “dá pro gasto” que coloca o Brasil na rota da mediocridade. Era 1976. Eu estudava no Mackenzie e estava passando um mês na região de Irecê, na Bahia. Eu fazia parte do projeto Rondon, um programa que durante anos levou estudantes do Sudeste do Brasil para conhecer as realidades do Norte e Nordeste do País. Talvez essa tenha sido a principal experiência que tive durante a faculdade. Uma lição de vida que não há o que pague. Conheci lugares abandonados pela sorte, onde conheci gente que me recebeu como se eu fosse um missionário dos deuses. Alguns de meus colegas, também estudantes, eram médicos ou dentistas. A chegada “dos Rondon” nas vilas era uma festa. Atendíamos filas e filas de pessoas que jamais haviam consultado um médico ou ido a um dentista. Eram histórias de cortar o coração... e que me ensinaram a ver um outro lado do Brasil. Um dia, visitando um dos lugarejos castigados pela seca e pela miséria, entramos numa sala de aula. Havia umas 20 crianças e uma professorinha, que devia ter seus 18 ou 20 anos. Escritas no quadro-negro estavam as frases que as crianças copiavam. E, no meio das frases, palavras como “poblema”, “visinho” e “fauta”. Erros de português gritantes. Escritos pela professorinha. Nunca me saiu da cabeça que aquelas 20 crianças seguiriam pela vida escrevendo “poblema”. Entendi, ali, no meio do nada, a importância do ensino, ao ver algo básico como a alfabetização sendo feito de forma... digamos... errada. Aquela professora deve ter aprendido o “poblema” com outra professora. E, como ela, outras 20 ou mais professorinhas da sua turma deviam estar ensinando outras 400 crianças a escrever “poblema”. E no ano que vem serão outras 400... e assim vai... Mas antes escrever “poblema” do que ser um iletrado ignorante. A professorinha era a única pessoa que aceitava dedicar seu tempo às crianças recebendo um salário que, na época, devia ser equivalente a 30 reais por mês... Pois é. Pouco tempo atrás contratei um pessoal para fazer um serviço de pintura em minha casa. Comecei a conversar com o chefe deles sobre outros problemas... — “Preciso dar um jeito nesta porta.” — “Eu faço serviço de marceneiro!” — “Tenho que instalar um ventilador de teto.” — “Eu faço serviço de eletricista!” — “Naquele banheiro tem um vazamento.” — “Eu faço serviço de encanador”! — “Pô, mas você não é o pintor?” — “Sou, mas faço de tudo um pouco.” Não precisei de muito tempo para descobrir que realmente ele conhecia um pouco de cada coisa. Um pouco. A pintura ficou um horror. O ventilador ficou torto. A porta ficou uma merda. E o vazamento voltou. Ele sabia, sim, de tudo um pouco. Só um pouco. Imaginei-o aprendendo seu ofício da mesma forma como aquelas crianças aprendiam a escrever naquele fim de mundo de meus tempos do Rondon. Aprendendo com alguém que sabia um pouco também e que foi ensinando um pouco. Era evidente que ele não fizera um curso ou que não tinha tido a prática com um pintor, um eletricista, um marceneiro, um encanador de verdade. Era tudo meia-boca. Dava pro gasto. Ou dava pra enganar o “bacana”. Ele pensava que resolvia problemas. Mas só causava “poblemas”. E o conserto custou mais caro. Incomodou mais. Tive de chamar outro profissional... e logo me vi refletindo sobre aquele microcosmo da minha casa. Aquilo era uma versão reduzida do Brasil. Um sujeito que aprendeu mal, fazendo o serviço mal, estragando o que estava mais ou menos, tendo de fazer de novo, causando gastos maiores, levando mais tempo, incomodando toda a família... Igualzinho àquela empresa aérea, cujo check in leva mais tempo do que deveria, diz que não tem lugar e o avião decola metade vazio, vende um mesmo assento para duas pessoas... Ou à transportadora que diz que a encomenda está liberada às sete, mas só abre as portas às oito e te segura lá até as nove, pois não acha o pacote... Ou o automóvel recém-lançado, com toda tecnologia, que solta pedaços de plástico na sua mão ou tem um acabamento porco... Ou...Para todo lado temos gente mal-preparada, fazendo tarefas que necessitam de um mínimo de apuro técnico. Ou que aprendeu processos errados, ensinados por alguém tão ou mais ignorante do que ele ou ela. E dessa sucessão de erros, emerge um Brasil difícil, pouco competitivo. Um Brasil que exige o microgerenciamento, já que mesmo as tarefas mais básicas podem estar sendo mal executadas. E dá-lhe cursos e treinamentos que exigem investimentos de milhões de reais por parte das empresas que precisam qualificar seu pessoal. Mas quem qualifica as pessoas que qualificam as pessoas? Quantas professorinhas não existirão por aí, espalhando os “poblemas” pelas empresas? Ah! Mas a culpa é do Estado, dos políticos, do sistema que não dá educação. Olha, não me interessa de quem é a culpa. Me interessa é que não podemos nos dar à mediocridade de ter pessoas ensinando mal outras pessoas. O preço a pagar é a falta de eficiência, de processos confiáveis, de inteligência, de competitividade. Me interessa que as professorinhas que têm em suas mãos a alfabetização das crianças sejam tratadas como os profissionais mais importantes da Nação. Elas estão atuando no momento chave da formação cultural de nossos filhos: no início. É nas mãos delas que está o poder de dar às crianças o gosto pelo aprendizado, pela leitura, pelo PENSAR! É das mãos delas que sairão crianças com repertório para começar a exercer senso crítico, para perceber as relações de causa e efeito. Elas são os agentes capazes de frutificar ou assassinar nos pequenos o gosto pelo pensar. Talvez as professorinhas mal-alfabetizadas sejam tudo que podemos ter nos vilarejos perdidos do Nordeste. Talvez uma daquelas 20 crianças tenha a sorte de encontrar um caminho com perspectivas pela frente, continuando seus estudos e transformando-se num profissional bem-sucedido. Mas, enquanto o Brasil contar com o “talvez” para traçar o caminho de seu futuro, vamos continuar andando para trás. Que tal começar tratando de quem tem a missão mais nobre, mais importante, mais estratégica de uma nação? Das pessoas que têm a missão de ensinar as crianças a ler, a escrever? Enquanto continuarmos pagando-lhes R$ 30, tratando-as como repetidoras de fórmulas prontas, o máximo que vamos ter é gente com “poblemas” para ensinar. O que fazer então? Podemos começar por nós mesmos, jamais parando de estudar. E estudar pode ser ler um bom livro, assinar uma revista inteligente, participar de eventos, assistir a uma boa peça ou filme, conversar sobre assuntos que exijam raciocínio. O que é que você anda estudando ultimamente? E podemos também estender a nossos filhos, apresentando-lhes a boa Música Popular Brasileira, os livros de Monteiro Lobato, revistas com conteúdo, filmes com qualidade, programas de televisão que exercitem o pensar. Qual foi o último desafio intelectual que você lançou para seus filhos? Também podemos exercer nosso papel de formadores de opinião, divulgando aquilo que encontramos de bom, que achamos que vale a pena, e manifestando nossa discordância daquilo que julgamos medíocre, vazio e pobre de espírito. Quantas pessoas você influenciou nos últimos três meses? Também podemos exercer nosso direito de não aceitar a mediocridade. Exigir o mínimo de inteligência ou de conhecimento do profissional que nos atende, compreender que conhecimento é valor e que devemos pagar por isso, aceitar que quem estudou para ser um profissional merece ser valorizado diante dos aventureiros que sabem um pouquinho de tudo... Qual foi a última vez que você aceitou pagar mais por algo que trazia um valor intangível embutido? É duro, né? Quase 30 anos depois daquela minha experiência no sertão da Bahia, descubro que cruzo todo dia com alunos da professorinha. Todos sabendo ler e escrever. Um pouco. Todos treinados em seus ofícios. Um pouco. Passam por mim sorridentes, me atendem simpáticos, cumprem suas tarefas com zelo. Mas escrevem “poblema”. Por essas e outras é que temos que nos conformar. O Brasil anda para frente, sim. Mas com um “poblema”: aos poucos.

Capítulo 21 Seleção ou Sucessão A mídia medíocre ocupando espaços com temas medíocres, ajudando a moldar uma geração de analfabetos políticos. Durante a Copa, fomos bombardeados pela mídia falando dos convocados e do esquema de jogo. Milhares de páginas e horas discutiram o plano do treinador, as estratégias e táticas, as ameaças e oportunidades e os competidores. Afinal, tem coisa mais importante que ganhar a Copa? Tem. Na campanha presidencial de 2002, assistimos aos discursos, à propaganda televisiva e à lengalenga de sempre de três ou quatro candidatos com chances de assumir a direção do Esporte Clube Brasil S.A. E o que discutimos? Qual marqueteiro levaria vantagem. Qual campanha televisiva seria a mais criativa. Os novos ternos do Lula. A antipatia do Serra. O falatório do Garotinho. A mulher do Ciro. Discutimos os acessórios. O principal, os PROGRAMAS, as propostas concretas para dar continuidade ao crescimento do País, ficaram em segundo plano. Se discutíssemos a sucessão como discutimos a Seleção, com certeza teríamos mais inteligência, valor e conseqüência. Mas parece que a Seleção é mais importante que a sucessão. Essa discussão vazia cria os analfabetos políticos, tão bem descritos por Bertold Brecht, escritor e teatrólogo alemão, no texto a seguir: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das multinacionais.” Eu já topei com analfabetos políticos. Gente que se orgulha de dizer que não gosta de política, que não vai votar “nisso que está aí”, votando em branco ou anulando ou simplesmente não votando. Uma espécie de protesto burro, que coloca nas mãos de terceiros seu próprio destino. Tenho notado no Brasil uma profunda ignorância sobre o que vem a ser política. Como faz com todos os problemas complexos, inclusive com o esquema tático da Seleção, o brasileiro simplifica. Reduz a política a troca de favores, a conchavos, a coisa de gente desonesta, disposta a tirar vantagens pessoais... E tudo passa a ser “sempre assim...” e vira piada. Tá bom, fazer humor de suas desgraças faz parte do código genético do brasileiro, mas deixar o destino nas mãos de terceiros, não. Isso é burrice, para dizer o mínimo. Coisa de pocotó. E quem vota, sem analisar propostas, apenas interessado em benefícios imediatos ou no discurso “bonito” dos candidatos, é o que? Semi-analfabeto político! Pois tenho uma má notícia. Nosso destino está nas mãos de alguns milhões de semi-analfabetos políticos! Alguém duvida? Se um programa de tevê é capaz de eleger um presidente da República da mesma forma como elege o vencedor do reality show... estamos encrencados. Essa constatação me leva a uma súplica. Para que os meios de comunicação de massa, que hoje discutem o acessório, iniciem um processo de alfabetização política. Ainda há tempo. Em vez de falar da barba aparada do Lula, falar de suas propostas. Em vez de falar do primo do Serra, falar de sua receita para o Brasil voltar a crescer. Que tal analisar de forma objetiva, inteligível para a população, os planos dos próximos candidatos? Explicar o que existe de bom e o que é lengalenga? Dizer por quais razões não dá para praticar uma ruptura ou manter o modelo atual? Avaliar o currículo de cada candidato e suas possibilidades de cumprir as promessas? Avaliar quem são os prováveis ministros de cada candidato, quais suas idéias? Da mesma forma como fazemos com a Seleção. Essa comparação, se devida e repetidamente feita, com linguagem simples e didática, prestará ao Brasil um serviço maior que os milhares de minutos e páginas gastos diariamente com superficialidades. Quando a mídia de massa começar a tratar seus leitores e espectadores como algo mais que analfabetos políticos, começaremos a mudar este País. E talvez ganhemos algo mais importante que a Copa.

Capítulo 22 O Diálogo Conquistados pela mediocridade, perdemos a capacidade de reparar nos pequenos detalhes... e valorizamos o óbvio como se fosse algo extraordinário e digno de admiração. Aí, a situação fica preta. Gritaria de todo lado, um diz que está errado, o outro diz que não, o dólar, o juro e — a moda atual — o risco Brasil, sobem. De repente, no meio da gritaria, uma figura toma uma decisão. Armínio Fraga, presidente do Banco Central no período FHC, convida Aloizio Mercadante, o guru econômico do PT, que tinha chances de vencer a corrida presidencial — o que acabou acontecendo — para uma conversa. Foi como se alguém tivesse acendido a luz. O mercado acalmou, o dólar baixou e o risco Brasil idem. A mídia achou o máximo e disse que Armínio era o único estadista de verdade no governo. Curioso. O ato causador de todo espanto e impacto positivo no mercado não foi um mirabolante plano econômico. Tampouco a decisão de baixar juros. Muito menos a mudança de regras do jogo econômico. Foi um singelo convite ao diálogo. E nós, brasileiros, numa brutal confusão mental, achamos o máximo a atitude dele! Gente, o Armínio foi dialogar. E esse ato simples, civilizado e objetivo, baixou as tensões do mercado... Fica claro que a dinâmica das regras ditadas pelos economistas é a mesma das ditadas pelos milhões de técnicos para o Felipão? Todos têm uma teoria de como a coisa deve funcionar. Qualquer um é capaz de falar horas a fio sobre como fazer, quem escalar, de que forma jogar para resolver nossos problemas. Mas esse blablablá só serve para criar tensões, estresse, especulações e gastar nosso tempo. O que vale, mesmo, no esporte e na economia, é o dialogar, seguido de ação. Mas, no Brasil, governo não dialoga com oposição, e vice-versa. Quantas vezes vimos o Lula, orgulhoso, dizendo que se recusava a ir conversar com o FHC? Ou o FHC, orgulhoso, dizendo que não chamaria a oposição para dialogar... Como se esse orgulho fosse a afirmação de autoridade. É sim. De autoridade pocotó. E vemos pessoas inteligentes entrando no jogo político e passando a pensar como entidades e não como seres humanos. Entidades não têm coração, nem cérebro. Pensam pelo consenso, que nivela por baixo e privilegia não o mérito das idéias, mas a concordância em torno delas. Por consenso, elaboramos uma constituição prolixa, confusa, complexa e que deixa o País quase ingovernável. Por consenso, transformamos a Lei Zico numa caricatura do projeto original. Por consenso, teríamos o Romário na Copa. Armínio pensou como ser humano. E fez o que era lógico: chamou os críticos para conversar. Felipão chamou Parreira. E se a atitude de Armínio e Felipão é considerada algo inovador, genial ou inesperado, capaz de acalmar a especulação do mercado, então estamos fritos. Perdemos a capacidade de avaliar os problemas. Estamos focados numa receita ditada pelos especialistas, que é apenas a casca do problema. Mais importante que a fixação da taxa de juros ou o resultado da última pesquisa presidencial, é o impacto psicológico que os absurdos ditos pelos especialistas, e a falta de diálogo, causam na população. E, por tabela, no mercado. Qual a lição de Armínio? Que atitudes valem mais que planos elegantes ou conceitos complexos. Atitudes são o problema e a resposta para o Brasil. Atitude é o que faltou para aquele governo em fim de mandato e aos postulantes ao cargo de presidente. E você? Já parou para pensar que está na hora de parar com esse blablablá e AGIR? Armínio mostrou por onde começar.

Capítulo 23 Ragatanga Aserehe ra de re De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi An de bugui an de buididipi Aserehe ra de re De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi An de bugui an de buididipi Aserehe ra de re De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi An de bugui an de buididipi Você deve estar perguntando que raio de coisa é essa que eu escrevi acima. Nada demais. É só o refrão de uma música de grande sucesso gravada por aquele grupo sintético de garotas que foi formado ao longo de semanas em 2002, pela tevê, num programa do SBT chamado Pop Stars. O nome do grupo é Rouge. São cinco garotas, bonitas e talentosas, escolhidas entre milhares, e trabalhadas por um grupo de profissionais de televisão e de gravadoras, para serem transformadas em sucesso e vender milhões de CDs. O refrão acima é da música “Ragatanga”, versão em português do sucesso de outro grupo de garotas européias. Pois eu recebi estes dias um e-mail com um alerta. Cuidado! “No dialeto da tribo Assab, da Eritréia, no noroeste da África, essa canção ao som de tambores é dançada enquanto forças malignas são evocadas.” Tem coisa com o demônio. Algumas das garotas que gravaram na Europa sofreram doenças e castigos relacionados ao diabo. Não deixe seu filho assistir. Ou cantar. O demo pode chegar... Não pude deixar de lembrar de uns fatos interessantes. Por exemplo, quando aprendi o Hino Nacional e o cantei por anos sem entender patavina coisas como “lábaro estrelado”, “fulguras, oh, Brasil, florão da América” e outras frases. Mas eu cantava de peito cheio. Sem entender nada. Depois, seguindo minha mãe na igreja, eu ouvia horas a fio os sermões dos padres citando a Bíblia. E não entendia nada, mas estava lá, rezando. Aí, interessei-me pela música. Ray Coniff, Beatles, James Taylor. Nunca entendi bulhufas daquelas letras, mas me encantava e cantava. Era inglês, pô! Mas, aí, veio o Luiz Melodia, com “lava a roupa todo dia, que alegria, na quebrada da soleira...” Quebrada da soleira? Que catzo? Mas a música era irresistível e, mesmo sem entender, eu cantava. Entrei no Colégio Técnico de Eletrônica. Aulas com o professor Marcos e um livro maldito, de capa vermelha, sobre eletrônica. Eu não entendia porra nenhuma. Mas passei de ano. Na universidade, me deram para ler a “Psicologia de Massas do Fascismo”. Willelm Reich. Não passei do índice. E o “18 Brumário”. Não passei da capa. Engraçado como a gente assume e repete ditos, frases, letras, orações, mesmo sem entender nada! Será que uma reza, sem entender o que se está falando, é válida? Uma leitura, sem entender o texto, também? Uma música, sem entender a letra? E um refrão ,numa melodia esquisita, da Eritréia, que chama o diabo — Ninguém entende nada do que está sendo dito — Será que mesmo assim o chifrudo aparece? É impossível não fazer um paralelo com nosso processo eleitoral. Você viru o Ciro falando? Dava para entender uns 30%. E quando se discutiam os programas? Quanto daquele debate foi compreendido pela massa? Dívida interna... regras do FMI... superávit primário... E quando vêm os economistas para explicar? Ninguém entende merda nenhuma. Mas, aquele monte de dados, frases e termos incompreensíveis estiveram em voga o tempo todo. Dão importância, solenidade e credibilidade aos temas discutidos. E a quem os discute. E votar num candidato sem saber o que ele fala, é válido? Aí, brota de forma clara, direta, a grande operação montada para tornar inteligível aquilo que deve ser entendido. De um lado, Ciro falando bonito, impressionando e disparando como um foguete. De outro, a velha retórica do PT e do PSDB. No meio, o Garotinho, usando e abusando do humor e da irreverência, traduzindo de forma simplória temas complexos. Não precisou muito para o Ciro se embananar todo e começar a cair. Sem dúvida nenhuma, pela dificuldade do povo em entender o que ele dizia. E quanto tentou usar ironia, quebrou a cara de vez. Enquanto isso, o Lula aparecia como num sonho, rodeado de grávidas, vestidas de branco, correndo num campo ao som do “Bolero de Ravel”. Se, em vez do Lula, aparecesse um Modess, seria perfeito. Com o Lula, ficou muito estranho. Pedante. Forçado. Aquela testa franzida de forma severa, de uma hora para outra vira expressão de paz e amor. Como se diz em Bauru: “Não orna...” Mas o povo entendia a mensagem. O Serra, o tempo todo, falando como professor. Tentando a todo custo se fazer entender. - “Eu explico. Eu sei como fazer. Eu tenho experiência.” O jeito dele falar me enervava. Devagar. Com umas engolidas no meio das frases. Parecia estar dirigindo-se a um bando de pré-adolescentes... - “Senta aqui no colinho do titio que o titio explica.” Uma coisa ficou clara para mim: nunca um evento colocou de forma tão explícita o poder das técnicas de comunicação, do trabalho profissional de quem sabe como falar ao povo. Da forma triunfando absurdamente sobre o conteúdo. E subitamente, o fato de um sujeito ser bom de debate o qualifica como apto a assumir um cargo chave no governo. Competência, educação, treino, experiência, habilidade, não contam. O que vale é ser bom de debate...de comunicação. Eu sou do ramo. Sou profissional de comunicação. Todas as vezes que ouvi um candidato falar, qualquer um deles, senti claramente que cada frase terminava assim: “...viu, Luciano, seu imbecil?”. Nada era original. Nada era sincero. Nada era verdadeiro. Tudo era superlativo, glamourizado . E o Brasil mais uma vez inova e mostra ao mundo que com uma boa comunicação se faz uma democracia. Comunicação... justamente o que faltou para FHC terminar o mandato nos ombros do povo. Viva, pois, os marqueteiros! Afinal, quem consegue vender milhões de CDs com uma música cuja letra diz “Aserehe ra de re / De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi”, embalar um candidato para presente é fichinha... O risco é aparecer o tinhoso...

Capítulo 24 Os donos da verdade Pior do que os medíocres passivos são os medíocres ativos. Gente que usa o atributo pensar para achar que sabe das coisas. Gente que diz o que quer, quando quer... e que ocupa espaços preciosos. Gente que assume papéis de liderança e que causa um estrago sem tamanho. Eu tinha um conhecido que me deixava louco. Era apresentar uma idéia, um cartum, uma proposta e ele imediatamente abria a boca e saía analisando, criticando, julgando. E eu, indignado: “Pô, mas não deu nem tempo de você ver a proposta direito! Dá pelo menos uma respirada antes de dar a opinião”. Eu não me conformava que um cérebro pudesse trabalhar de forma tão rápida, analisando as variáveis, as intenções, as nuances...numa fração de segundo. Mas o bicho abria a caixa de ferramentas... e sai da frente! Depois descobri que ele não analisava porra nenhuma. Tinha opiniões prontas, que escolhia e despejava, mais para marcar uma posição de superioridade do que para construir, colaborar ou enriquecer a discussão. Você conhece gente assim? Os chamados “opiniáticos”? Eu conheço um monte. Despertam meus instintos assassinos. Sinto-me desconfortável com as pessoas que julgam de imediato uma frase. Uma idéia. Uma postura. Um comportamento. Um gesto... Gente que cegamente baseia-se num exemplo. Numa opinião de terceiros. Numa notícia de jornal. Num preconceito. Num modelo preconcebido. Numa idéia antiga. Num “me contaram” para classificar, julgar ou condenar uma idéia. Argh! Eu já lidei com muitos. Ainda não matei nenhum. Mas os mais chatos são os “opiniáticos” políticos. Quem já bateu boca com esquerdistas, sabe o que significa opinião enlatada, pronta. Olhem só o que passamos, nos últimos 10 anos, para não voltar demais no tempo. A esquerda não deu trégua. Fez o que pôde para impedir, atrasar, atrapalhar as iniciativas que não eram suas verdades. Votou contra. Atacou. Simplificou. Ridicularizou. Muitos dos problemas que vivemos hoje foram criados, alimentados ou tornaram-se possíveis graças ao comportamento radical, rancoroso e burro da esquerda de opiniões prontas. Da análise apressada. Das verdades absolutas. Do rancor. Ela gritou. Buzinou. Ela foi cega. Condenou antes de julgar. Alimentou-se de preconceitos. Usou o recurso do mau humor, da cara feia, da ridicularização, para emoldurar seu discurso amador. E fez sucesso. Afinal, pessimistas sempre parecem mais inteligentes do que os otimistas. Somente quando parou com seu palavreado radical, duro e destrutivo, nossa esquerda foi aceita como uma opção viável pela maioria do povo. E, ao assumir o poder, começou a utilizar as mesmas ferramentas que combatia rancorosamente. Começou a discursar no mesmo tom e conteúdo que sempre condenou. Percebeu, mas não deu o braço a torcer, que talvez aqueles que combatia estivessem com razão... com alguma razão. E, um dia, quem sabe, com o mesmo bom senso dos ex-guerrilheiros que hoje fazem parte do ministério, renegando seu passado de violência e radicalismo, a esquerda reconheça sua parte do ônus pelo atraso do Brasil.

Capítulo 25 O Rancor Como é desagradável lidar com pessoas que fazem do rancor sua manifestação primeira. Gente que analisa o mundo sob a ótica rancorosa dos que jogam a culpa nos outros. Indivíduos que não percebem que, ao destilar seu ódio, apenas contribuem para que os problemas não tenham solução. As pessoas sensatas sabem que é evidente, claro, lógico e natural que dirigir um país não é coisa simples. Envolve administrar interesses. Conceder. Dar para receber. Conviver com idéias diferentes das suas. Aceitar a verdade de outros. Envolve aceitar o bom sem querer o ótimo. Perder aqui para ganhar ali. Passar por incompetente ou mau-caráter. Envolve entender que as coisas são muito, mas muito mesmo, mais complicadas do que parecem. Envolve ter paciência. Ouvir acusações de todo tipo, dar atenção a gente que não tem conhecimento do assunto que critica... Envolve conviver, diariamente, com a mediocridade. Enfim, dirigir um país não é coisa para principiantes. Mas para a esquerda medíocre, parece que é. Sempre que me perguntam qual defeito eu não admito, costumo dizer que são dois: o mau humor e o rancor. O mau humor porque é broxante, destrói, contamina, desenergiza, é burro. E o rancor porque cega, emburrece, destrói. Lembro que cresci lendo “O Pasquim”. Eu esperava com ansiedade, durante o começo dos anos 70, os dias em que o jornal chegava às bancas em Bauru. Era uma leitura inovadora, absolutamente revolucionária. Textos maravilhosos, de gente que via um Brasil que não era permeável aos garotos de 15, 16 anos do Interior. Eu colecionava o Pasquim. E sei que nomes como Ziraldo, Ivan Lessa, Paulo Francis, Jaguar e Millôr Fernandes tiveram um papel fundamental em minha formação de cartunista e em minha visão do País. No dia em que encontrá-los, vou fazer questão de agradecer compulsivamente pela oportunidade que me deram de entender o País, o comportamento do brasileiro e as outras opções que existiam por trás da versão oficial. Quando o Pasquim acabou, fiquei órfão. Não apareceu nada à altura... Mas aí eu estava a caminho de São Paulo e engajei-me nos movimentos estudantis, tomando contato com as diversas correntes de pensamento que fervilhavam na segunda metade dos anos 70. Pois bem, mais de 25 anos depois, recebo a notícia de que Pasquim estava voltando, fruto da luta de Ziraldo, que sentia a falta de uma tribuna como aquela. Eu fiquei feliz! E comprei a primeira edição, e a segunda, e a terceira... para logo me enfastiar com o volume de rancor daquelas páginas que nos anos 70 transbordavam irreverência. O rancor matou em mim o novo Pasquim. E desisti dele. Inconformado, vejo uma publicação riquíssima, com gente de primeira, com coisas fantásticas, envolvida numa nuvem de rancor que me broxa. Rancor cansa. Mas mesmo cansando, a gente tem que ler, pois são opiniões inteligentes, de quem tem história e experiência. E os meses anteriores à eleição de 2002, então? Foram uma passarela para o rancor. O discurso dos partidos, em especial do PT e de seus simpatizantes foi um primor de radicalismo, falta de classe e ódio cego. A campanha eleitoral foi totalmente baseada na destruição do adversário, na simplificação dos problemas e na demonização de pessoas e processos. O próprio Lula foi estigmatizado o tempo todo. Uma pena. Mas que, descontando os estragos, concede-nos momentos sublimes. Lembram-se das lágrimas da senadora Heloisa Helena diante da indicação de Henrique Meirelles para o Banco Central? Sua reação radical a uma atitude que vai contra seus princípios deve ser admirada e comemorada. É uma aula de coerência, mesmo flertando com um radicalismo que mostra pouco espaço para a convivência com a democracia, a política e suas armas. Seus valores são admiráveis. Suas convicções, questionáveis. Mas são esses radicais, loucos e explosivos que iniciam as mudanças. E, nesse sentido, têm mais é de ser admirados, alimentados e divulgados. Mas se existe mérito no conteúdo, existe equívoco na forma. Que saudade da verve de um Paulo Francis, um Nelson Rodrigues que conseguiam transformar seu radicalismo, preconceito e mau humor numa forma brilhante e cáustica de crítica, até mesmo bem-humorada. Felizmente isto aqui é o Brasil. Onde a cordialidade, para desgosto de alguns, supera o rancor, funcionando como um antídoto que impede a ação extrema, a violência nas ruas e o terrorismo generalizado como formas de defesa de pontos de vista. No Brasil, ao contrário de outros países, o rancor ainda não mata. Mas faz barulho e ridiculariza. Ocupa nosso precioso tempo. Consome energia. Nubla o raciocínio. Alimenta o preconceito. Mata a paciência e a prudência. Acaba com a generosidade. Torce a realidade. Pulveriza a democracia. O rancor é negativo, dele nasce a guerra e a intransigência. O rancor destrói. O rancor é medíocre. O rancor é burro. E do solo que ele aduba, apenas um fruto pode brotar: mais rancor.

Capítulo 26 A Santa de Vidro Todo mundo precisa de esperança. Mas nem sempre encontramos onde buscá-la. E, quando isso acontece, a gente perde a capacidade crítica... e aceita qualquer absurdo. — “Olha essa mancha, que engraçado!” — “Não estava aqui antes.” — “Parece com...” — “Uma santa!” — “Isso! É uma santa!” Em poucas horas a notícia se espalha. A turma começa a correr até o local para ver o milagre da imagem da santa no vidro da janela. A mídia é avisada, e em minutos, o milagre está em rede nacional. Em dois dias, especialistas visitam o local. Até o bispo comparece. As dezenas de pessoas transformam-se em centenas, e logo em milhares. E outra imagem aparece, desta vez no vidro da cristaleira de uma casa humilde, em outro bairro... Será que finalmente Ele teve pena dos brasileiros sofridos e decidiu intervir?? Pois olhem o texto que recebi pela Internet esta semana. Infelizmente, sem indicar o autor: Expectativa X esperança Nestes tempos de fazer planos para o novo ano e de definir meta para o futuro, vale saber a diferença entre a expectativa e a esperança. A expectativa é turbulência na mente. A cabeça dispara tentando prever cada detalhe daquele encontro, daquela viagem, daquele trabalho. Os pensamentos correm na frente do tempo e a imaginação fervorosa controla cada movimento, como se essa fosse a garantia da conquista, a segurança de que tudo vai sair exatamente como você quer. As noites são maldormidas, ocasionadas pela expectativas dos dias que virão. Quem já não se enroscou nas teias da expectativa? A expectativa frustra, paralisa, esvazia o presente, exaure, cega, estreita, fecha os horizontes, é baseada no desejo de controle e na arrogância, gera dor e angústia. A esperança é gerada no coração. Tem os olhos no futuro, mas as raízes fincadas no presente. Ela se baseia na sabedoria de que o universo dita a hora certa para que tudo brote. Com a esperança é possível entrar em sintonia com a natureza, abrir caminhos, ampliar horizontes. Ela se multiplica em calma, confiança, clareza e movimento. A esperança é o sentimento que se desdobra na aceitação da vida, da abundância, da alegria e também da escassez, da tristeza. Quando se alimenta um desejo com esperança, ele é lançado no espaço, mas ficamos firmes e prontos para receber o que vier de braços abertos. Há a compreensão de que o universo conspirou da melhor maneira possível a nosso favor, não há sensação de que nos foi negado um pedido. Porém, essa é uma sabedoria que tende a chegar na maturidade, com a compreensão de que a vida realmente é feita de altos e baixos... A esperança nutre, move, promove aceitação da realidade, gera energia vital, ilumina, amplia, abre os horizontes e as possibilidades, é baseada no valor da vida, gera alegria. A expectativa angustia. A esperança acalma. Por isso é importante "deletar" as expectativas e ficar somente com a esperança. Pois é... De expectativas, estamos de saco cheio. Ninguém agüenta mais as explicações verborrágicas de como chegamos na situação atual e qual a receita para dela sair. Os especialistas servem para isso: criar expectativas. O Brasil precisa é de esperança. E já que os donos do poder, esfregados em nossa cara a cada minuto pela mídia, não dão a esperança, a gente vai buscar noutro lugar. E, nessa hora, meu caro, até mancha em vidro vira santo. E notícia. E catarse. Pobre Brasil, cheio de expectativas. Quisera fosse esperança. Pouco depois que publiquei este texto, e é claro que não foi por causa dele — ou inspirado nele — os marqueteiros do Lula saem-se com o slogan “A esperança vai vencer o medo”. Evidentemente, não me referi ao Lula quando terminei de escrever, mas acho que ele faz parte do contexto e acabou catalisando para si uma expressiva — e perigosa — parcela da esperança nacional. Afinal, mais de 50 milhões de votos são um sinal importante... Haja santo!

Capítulo 27 E Se?... Microgerenciamento, controles e falta de objetividade: sintomas da mediocridade que se tornaram normais e com os quais aprendemos a, mediocremente, conviver. Rosvaldo está noutra reunião monótona, focada na eficiência operacional e no curto prazo. Os verbos são REDUZIR, CORTAR, CONTROLAR... Nada nutritivo, divertido ou objetivo. A reunião é um duelo de egos, de inexperiência, de submissão ao regime autoritário do controle. Na parede: “Pessoas são nosso ativo mais importante.” "Exceder as expectativas dos clientes.” “Cidadania e responsabilidade social.” A distância entre o texto da placa e o conteúdo da reunião é colossal. Rosvaldo lembra de Cabral com seu mapa, seguindo para as Índias e chegando ao Brasil. Para que terá servido o mapa? Quinta hora de reunião. Repentinamente, a discussão esquenta, e ele nota brilho nos olhos quando um assunto deixa o operacional e passa para o exercício do sonho, do “e se?”. Mas a mágica dura pouco. O momento criativo reduz-se a uma linha numa folha. Alguém vai fazer uma pesquisa, reunir mais dados e trazer para a discussão. No mês que vem...ou nunca mais. Sexta hora. Os olhos ardem com o ar condicionado viciado. Tanta gente inteligente reunida... por que o resultado da reunião não é brilhante? Por que aquilo não é um time? Talvez porque cada um está pensando no seu, não no “nosso”. Êpa! Agora, aquele ali, previsivelmente, começa a repetir tudo o que havia sido tratado na reunião do mês anterior. E o grupo entra no jogo e começa a discutir o passado... Sete horas. Pausa para o xixi. “O que é que eu estou fazendo aqui?” — Pensa Rosvaldo. — “Mijando, imbecil!” Rosvaldo olha assustado. Está só no banheiro... quem falou? — “Eu!” É o cara no espelho! Com uma expressão de alguém que está exaurido psicologicamente. — “Rosvaldo, como é que você agüenta, hein?” — “Ué, faz parte dos negócios!” — “É esse o negócio que você queria?” — “Não!” — “Então, como é que você suporta?” — “Pô, tenho família pra sustentar!” — “Não, meu caro, você agüenta porque esta situação lhe é familiar. E isso dá uma sensação de... controle!” Controle... Controlar... Nona hora. Termina a reunião. Ninguém mais tem energia. Poderia ter durado quatro horas ou três... O que faltou para aquele grupo de gente inteligente? A pista está naquele breve momento em que os olhos brilharam: i-ma-gi-na-ção. Imaginação liberta. Controle prende. Imaginação motiva. Controle tolhe. Imaginação cria. Controle repete. Mas imaginação não brota em terreno adubado com controle. A falta de imaginação leva a situações em que o controle parece ser a única saída. E sendo o controle tangível, mensurável e familiar é adotado como a tábua da salvação. E dá-lhe ISO e outros programas e modismos com siglas velhas e novas. No fundo, adotados como saída para a incompetência de quem sofre de falta de imaginação. Discute-se o processo, para compensar a falta de talento. Talento! Terá sido esse o problema daquela reunião de nove horas? Falta de talento? Não, meu amigo. O problema é o excesso de controle. Que não deixa espaço para o talento. Que sufoca a imaginação. - “Como é que você agüenta?” — repetiu o cara no espelho. - “Nem imagino” — descobriu Rosvaldo...

Capítulo 28 Mais ou Menos como o Brasil I Temos problemas? Claro que sim. Mas quando comparamos com as encrencas que nossos vizinhos tem enfrentado, dá até para imaginar que talvez não sejamos tão medíocres. Passei uma semana na Argentina, no começo de maio de 2002. Fui para lá apreensivo, esperando o caos, como vi nos noticiários: embate da polícia com manifestantes, lojas fechadas e a pobreza extrema. Mais ou menos como o Brasil. Chego no aeroporto e dou de cara com um Audi exposto num estande. Não um Audi qualquer, mas “O” Audi. Coisa de sonho. O motorista da empresa aguarda, sorridente. - “Y entonces? Como están las cosas?” - “Un poco preocupantes, pero buenas”. Pensei que o cara estava louco. Vi o “arrastão” quesai abrindo os sacos de lixo e esparramando sujeira pela Calle Florida e imediações , depois que as lojas e lanchonetes fecham as portas. Esse grupo é composto de gente muito jovem. Não estão em andrajos como os mendigos brasileiros e recolhem qualquer coisa de valor ou que dê para comer. Também vi algumas crianças pedindo moedas. Mais ou menos como o Brasil. Em Rosário, vi dois “parados”: ruas interrompidas por manifestantes. A polícia fica uns 50 metros à frente, desviando o trânsito. O colega argentino que estava dirigindo nosso carro tratava o fato com a maior naturalidade. “— Temos um parado allá. Seguimos por acá”. A conversa era a situação econômica: “— Vivimos 10 años de mentiras. Y hoy estamos pagando la cuenta”. Impressionou-me a quantidade de argentinos que não acreditam na Argentina... Mais ou menos como o Brasil. Recordo do motorista respondendo sobre os panelaços: “— Si. Unos 26 baten panelas, la media fotografa de pierto e en el dia siguiente los estampa en la primera página del periódico. Así el mundo entiende que tenemos miles de personas en el panelazo”. A mídia, sempre ela, ampliando o clima de medo e insegurança e levando para o mundo a certeza de que lá não tem jeito... Mais ou menos como o Brasil. Todos os restaurantes nos quais jantamos — e não foram restaurantes simples — estavam cheios. De argentinos. Do lado de fora, uns fuçando no lixo. Do lado de dentro, outros tomando o melhor vinho e comendo a melhor massa. Mais ou menos como o Brasil. Temos operações lá que, depois da desvalorização, começaram a ganhar dinheiro! O segredo? Têm de 60 a 70% da produção exportada para os Estados Unidos. Entrar naquelas fábricas limpas, ver robôs novíssimos e resultados cada vez melhores contrastava com aquilo que esperávamos ver: crise. Mais ou menos como o Brasil. A Argentina, como o Brasil, nunca parou em suas crises. O que ocorre por lá, mais que as explicações técnicas dos economistas, as receitas dos organismos internacionais ou a corrupção desenfreada, é uma crise de credibilidade interna. Argentinos não acreditam na Argentina. Acham que não existe saída. E colocam toda a culpa nos políticos, que teriam levado o País à situação atual e que impedem que sejam tomadas medidas saneadoras. Mais ou menos como o Brasil. Reduzir a discussão da crise argentina a um problema de fluxo de caixa, de política cambial ou de planos econômicos fracassados é tratar o sintoma sem cuidar da causa. O que vemos lá é um lento processo, que levou uma ou duas gerações, de queda de credibilidade, de falta de uma “liga” nacional, de desilusão pela nação. Algo mais ou menos como um “cada um por si” que destruiu o “todos”. Só no futebol vemos a redenção argentina. Quando acordaram, não dava mais para corrigir. A crise não tem UM culpado. Não é o Duhalde, como aqui não é o FHC. A crise é do povo. E a tese de que o pobre povo é enganado, coitadinho, manipulado, explorado, maltratado pelos malignos donos do poder, também é uma simplificação idiota. É um “lavar as mãos” que faz a Argentina viver o resultado de um longo processo de analfabetismo político. Se há bandidos no poder, quem os colocou lá foi o mesmo pobre povo explorado, enganado, maltratado que hoje faz o panelaço. Triste. Muito triste. Mais ou menos como o Brasil? Não. Aqui a gente tem esperança. Capítulo 29 Mais ou Menos como o Brasil Ii Mas as comparações mudam quando olhamos para vizinhos que sabem planejar, pensam a médio e longo prazo e tentam colocar gente competente em postos chave. Cheguei na Cidade do México, no país que acabava de bater o Brasil como a maior economia da América Latina. Prédios fabulosos, congestionamentos, a cidade cercada por um cinturão de pobreza, crianças pedindo esmolas nos faróis. Mais ou menos como o Brasil. — “El sucesso de México es la suerte” — disse-me um deles — “de estar ubicado en uno punto privilegiado, tener vezino rico, tener dos oceanos...” — “E Vicente Fox, o presidente que assumiu o México como uma empresa?” — “Unos aman. Otros consideran puro marketing. Otros no le dan pelota”. Mais ou menos como o Brasil. Distribuição de renda, pobreza... quem anda pela periferia da Cidade do México pode avaliar como esse problema está presente. Recomendações para não andar sozinho à noite, histórias de assaltos, armas apontadas para as cabeças e carros sendo roubados. Mais ou menos como o Brasil. Polícia ostensiva na porta da loja, com escopetas à mostra, dentro do shopping, no restaurante, nas esquinas dos hotéis. Nada a ver com o Brasil. Fábricas bem-montadas, com certificações de todos os tipos, gente treinada e motivada, sistema de comunicações bem-armado, sistema energético aceitável. Mais ou menos como o Brasil. Eles sabem aproveitar as oportunidades. Colocaram um grupo de elite na Europa, caçando negócios. Criaram políticas de incentivo às exportações das médias e pequenas empresas. Modernizaram-se rapidamente. Conheci fábricas que eu não imaginava possíveis na América Latina. Compram fábricas que os americanos não querem mais, levam para o México, modernizam e passam a vender para os EUA. Com o custo da mão-de-obra infinitamente menor, ganham dinheiro. Não perdem tempo com blablablá ideológico sobre a conveniência de aliar-se a este ou àquele. Não colocam a culpa de seus problemas na má sorte, na natureza (sim, eles têm terremotos lá)... apenas verificam as oportunidades de ganhos e vão atrás. “—Somos como aquelas pessoas que vivem em volta das fortalezas dos narcotraficantes colombianos. Estamos protegidos, não falta nada, se pegarmos um resfriado o remedinho chega na mesma hora. Mas sabemos que servimos como escudo protetor para o senhorio.” O Nafta? Ótimo. E a invasão americana, a descaracterização da cultura mexicana? Grandes marcas globais, os filmes dublados ou legendados, nada mais agressivo que no Brasil. Nada que mostrasse que os EUA tomaram conta do México. Aliás, senti um certo orgulho, uma idéia de nação mais forte até que a do brasileiro. Imagino que se deva ao escudo cultural milenar, ao referencial das civilizações pré- descobrimento, como os maias e os astecas. Isso TEM de ter algum impacto na cultura daquele povo, que já desenvolvia a agricultura, as artes, a construção de cidades, enquanto os índios americanos viviam em tendas. Do alto do Templo do Sol, em Teotihuacán, viajei no tempo imaginando como foi aquela civilização. Caminhei pelo Caminho dos Mortos até o Templo da Serpente Emplumada. Só, no meio daquelas ruínas, encontrei um guarda que cuida para que os latinos não destruam aqueles tesouros. Aquele guarda mexicano me contou sobre a arquitetura e as lendas do lugar. E disse que estava orgulhoso com o que fazia. Aquele mexicano não era um mero segurança. Era um protetor da herança cultural de seu povo. Era um asteca ou maia. Naqueles minutos, nos olhos daquele segurança, em sua voz, no carinho com que falava de cada detalhe, pude entender um pouco da força do México. Cultura. História. Orgulho. Mais ou menos como o Brasil? Não. Aqui, coisa velha a gente esquece ou joga fora.

Capítulo 30 A Bússola que virou Mapa Na falta de conhecimento, coragem e imaginação, nos agarramos a fórmulas enlatadas, criadas no exterior. Assim, temos como manter nossa desordem nos trilhos...mediocremente. É difícil achar gente que pensa. A inteligência é matéria-prima raríssima. Diante disso, começa a morrer o principal atributo dos brasileiros: a imaginação. A imaginação, a criatividade, precisa de um repertório mínimo. Exige PENSAR. E as pessoas não são ensinadas nem motivadas a pensar. Resultado? Onde foram parar as pessoas para as quais pensar é uma necessidade, um prazer? Agora leve essa realidade para o ambiente empresarial e some-a ao crescimento das empresas. Um empreendimento que começou com 20 pessoas, 20 anos atrás, hoje tem 500, mil, cinco mil. Um volume de gente assim é impossível de ser administrado. Surgem então os gerentes...os chefes...os supervisores...os encarregados. A maioria, gente que não sabe pensar. Minimamente preparada pelas escolas e depois pelos programas de treinamento das empresas, sempre focados em melhorar a eficiência das pessoas. Raramente preocupados em motivar o pensar. O poder é fragmentado... e as decisões passam a ser tomadas por dezenas, centenas, milhares de pessoas sem preparo. Sem inteligência. Sem o hábito saudável do pensar. E esse fenômeno, em intensidades diferentes — conforme a infra-estrutura educacional de cada país — é mundial. E, um dia, alguém descobre que a única forma de colocar um exército de ignorantes na linha é dar-lhes um roteiro. Faça isso e aquilo. Depois, aquilo e isso. E começam a surgir os programas de qualidade. A ISO 9000 é a primeira a ser implantada em grande escala. Colocada como exigência pelas grandes empresas para seus fornecedores, a ISO torna-se febre mundial e, num primeiro momento, realmente ajuda a colocar os processos das empresas em outro patamar, com um ganho de qualidade importante. E não é preciso muito tempo para que surjam outros programas, como QS, TS, Seis Sigma, PNQ... cada um mais exigente que o anterior. E é aí que mora o perigo. Primeiro, pela necessidade de montar estruturas para gerenciar esses programas: custo. Depois, pelo aumento agressivo da burocracia: tempo. Também, pela tendência em colocar a certificação como um fim. E, o pior: esses programas passam a ser interpretados como MAPAS e não BÚSSOLAS. A bússola indica o norte. Aponta a direção. E as pessoas criam seus caminhos, longos ou curtos, tortuosos ou retos. Cada uma desenhando o trajeto conforme sua necessidade. Mas, para isso, as pessoas têm de pensar. E, quando não pensam, não querem bússolas. Transformam-nas em mapas. Fórmulas prontas. Que digam exatamente o que e como fazer. E todos aqueles programas ambiciosos são transformados em gigantescos check lists que, se seguidos à risca, garantem consistência de resultados. Qualquer medíocre tem então um roteiro a seguir. E a empresa anda nos trilhos. Pois bem. Acontece que neste nosso mundo o valor está justamente nas pessoas que encontram caminhos diferentes, que fogem do roteiro, que improvisam, que criam... Pessoas que dificilmente convivem com mapas acabados. Pessoas que dificilmente surgem em ambientes burocratizados, amarrados, controlados. Esses indivíduos lidam com valores intangíveis. Entendem que o diferencial está nos atributos que envolvem as sensações, as percepções, o relacionamento. Sabem que não será a qualidade do produto ou a eficiência dos processos que garantirá o sucesso. Será a inteligência, a ATITUDE das pessoas. Mas inteligência exige o pensar. E como anda difícil encontrar gente que pensa...

Capítulo 31 Globaltismo e Globalpia A mediocridade é fenômeno global. Ataca por todo lado, em todas as classes, de todos os países. E provoca cada efeito... Começo de 2001, a Chrysler anuncia o fechamento de sua fábrica de picapes no Paraná. Na mesma semana, a Brasmotor havia encerrado as atividades de uma fábrica de geladeiras em São Paulo, colocando mais de mil funcionários na rua. Uma operação com vendas de cem milhões de dólares e com a produção a mil por hora. Explicação? - “Queda no mercado norte-americano, necessidade de mostrar aos acionistas que estão sendo tomadas medidas duras, corte de custos...” Lá vem o Brasil descendo a ladeira da globalização. Estamos testemunhando o efeito colateral da globalização: uma epidemia de GLOBALTISMO e outra de GLOBALPIA. O Globaltismo (mistura de Globalização com Astigmatismo) ataca um grupo de risco: pessoas no hemisfério norte usando gravatas, falando inglês, alemão, italiano ou japonês ao celular, munidas de palm tops e passando parte do dia em videoconferência. Em comum: certeza de que o mundo é em inglês e visão de curtíssimo prazo. E encerram o expediente às quatro PM. O globaltista não enxerga detalhes, apenas o todo. Em suas discussões, as operações regionais, com suas míseras dezenas de milhões de dólares, são imperceptíveis. O custo regional das decisões globais não é visível nas matrizes, que só enxergam de bilhão para cima. Globaltistas não diferenciam brasileiro de argentino, venezuelano de colombiano, português de espanhol e São Paulo de Buenos Aires. Vêem-nos como moeda de troca. Aperte no Brasil para ganhar na Europa, nos EUA. Mas, o mais curioso dessa nova doença é o seu contraponto: a GLOBALPIA. Mistura de GLOBALIZAÇÃO com MIOPIA, cujas vítimas são incapazes de enxergar de longe. Só vêem detalhes. Essa disfunção ataca pessoas em cargo de direção em empresas privadas, estatais, gabinetes políticos, clubes de futebol, etc. O grupo de risco fala ingreis e portunhol; desespera-se diante de boatos e tem visão de curtíssimo prazo. Quando há luz, passa parte do dia em videoconferência. Globíopes não enxergam grandes cenários. Onde estaremos em cinco anos? Que tendências globais vão gerar oportunidades ou crises? Não dá para ver, fica fora de foco. Globíopes cuidam de sintomas, posto que não enxergam as causas. Discutem o micro, posto que não enxergam o macro. Quando muito, dá para ver os vizinhos ali de baixo, cuja globalpia já virou GLOBARATA (globalização com catarata)... Sabe o que a mistura de globaltismo com globalpia nos dá? A imagem de país de operários, capazes de fabricar razoavelmente uma variedade de produtos, mas sem habilidade para desenvolver novas tecnologias, ou para cumprir o que promete. A superestimação das ISO, QS, Six Sigma e os outros instrumentos burocratizadores de otimização de processos que o brasileiro teima em confundir com inovação. A transformação de nosso maior talento — a capacidade de improvisar soluções — num atributo interpretado pelo resto do mundo como irresponsabilidade, falta de compromisso, de planejamento, de capacidade gerencial. O abandono, nas mãos de políticos, de decisões técnicas complexas que acabam por gerar apagões ou políticas fiscais que inviabilizam qualquer tentativa de competir globalmente. Eles, lá, Globastigmáticos, sem enxergar os detalhes, cobrando a conta em dólar. Nós, aqui, GLOBÍOPES, sem ver o geral, esperando decisões enquanto microgerenciamos o operacional e tentamos pagar a conta com reais. Um oculista, pelo amor de Deus!

Capítulo 32 O Consenso Medo de tomar decisões... ignorância... falta de liderança... A mediocridade tem mil faces. Aproveitei o embalo da inspiração eleitoral para refletir sobre democracia e as modernas teorias de gerenciamento e administração. Um sem-número de tendências que passam pelo famoso empowerment, pela gestão participativa e outros termos da moda, tem colocado em evidência a necessidade de se obter o consenso nas tomadas de decisão. Com aquela conversa toda de planejamento estratégico e a necessidade de comprometimento de todo o time, entende-se que tudo deve ser discutido, acordado e só então implementado. “É a democracia”, dizem aí. “É uma cagada”, digo eu aqui. E explico. Somos campeões em importar conceitos, interpretar de forma apressada e adaptar de forma desastrosa, com resultados questionáveis. As fórmulas mágicas desenvolvidas no primeiro mundo nem sempre se aplicam ao Brasil, mas são tratadas como dogmas. E essa questão do consenso é, no mínimo, hipócrita. A história da humanidade conta que sempre precisamos de líderes. Está em nosso DNA. Faz parte da constituição do ser humano, liderar e ser liderado. Todas as vezes que encontrei ilhas de excelência no Brasil, seja lá onde for, sempre, SEMPRE achei em suas raízes a figura de um líder forte. O visionário que conduziu a equipe para o sucesso . Pergunto-me quantas das suas decisões foram tomadas por consenso... É claro que os líderes mais modernos têm mecanismos para que suas equipes participem do processo de transformação de dados em informação e de sua análise. Mas, com certeza, eles também tem um limite para discussão e, no momento de decidir, dão a palavra final. Cabe a eles a ordem, o risco. E o povo segue. Quer ver como o homem foi feito para ser liderado? No meio daquela discussão toda sobre juros, economia, FMI e dívida externa, o Lula assume e coloca como prioridade uma agenda tão nobre quanto velha: o combate à fome. Algo que sempre esteve nas discussões, mas que nunca mereceu o destaque que a mídia dá para as elucubrações econômicas. Somente nos anos 80, quando Betinho assumiu um movimento (que caiu nas graças da imprensa mais pelo Betinho do que pela proposta), falou-se no combate à fome de forma sistemática, com o desenvolvimento de ações efetivas. E nem assim o problema foi resolvido. Pois bem, agora o líder recém-escolhido assume e fala de combate à fome. Imediatamente, o tema entra nas agendas de todos, que passam a dirigir seu foco para soluções à fome. De repente, fez-se a luz... e começa uma gigantesca mobilização. Foi só o chefe falar: foco na fome. Se esse líder mantiver o foco, vai conseguir resultados, sim, pelo menos enquanto tiver credibilidade... ou o sistema deixar. Foco. Mas uma coisa me preocupa. O Lula cansou de dizer que vai administrar pelo consenso, ouvindo a todos. Não vai dar certo. Isto aqui vai virar assembléia do PT. Quando se tenta administrar pelo consenso, dá-se espaço para que vençam não as melhores idéias, mas aquelas que conseguem a aprovação de todos, que buscam a unanimidade. E, para isso, vários interesses têm de ser conciliados, com concessões que, aos poucos, enfraquecem as idéias originais ou transformam bons planos e conceitos em colchas de retalhos. Vide a Lei Zico, a Constituição de 88, e assim vai... Sem contar o tempo imenso gasto no tititi... no leva-e-traz... no convencimento. Infelizmente, a gente não tem TEMPO para esperar pelo consenso. E Nelson Rodrigues já disse: "Toda unanimidade é burra”. Não poderia ter sido mais lúcido. Então, aqui vai meu pedido: Consenso, presidente? SIM! Mas só quando tiver tempo. Discuta, sim. Pergunte, sim. Mas não espere, lidere. Mande. Assuma a responsabilidade. "Hay que ser duro, pero sin perder la ternura jamás”... lembra do Che? O Brasil não precisa de processos nem de planos elegantes. Muito menos de blablablá. O Brasil precisa de líderes, de pulso firme, de coragem e de decisão. E a história colocou essa oportunidade em suas mãos. Agarre-a com todos os dedos. “Ah, mas falta um!” — alguém há de dizer. Não faz mal, presidente. O senhor tem no mínimo mais 540 milhões de dedos para ajudar. Capítuo 33 A Teoria dos Quatro Rês Socorro! Se cada um tem uma verdade, em quem eu acredito? Uma receita para fugir da mediocridade da enxurrada de informação que nos afoga todo dia. Em pleno apagão, um de nossos grandes diários estampava a manchete: “BELGO MINEIRA PREVÊ QUEDA DE PRODUÇÃO DE 5%”. A matéria dizia que a Belgo havia feito exercícios com base em cenários possíveis do apagão e concluíra com a estimativa de queda. No meio da matéria, a frase profunda e definitiva do presidente da empresa: “O fato é que não temos certeza de nada...”. Perdi meu tempo lendo. Alguém perdeu escrevendo. Todos os consumidores de aço tomaram um susto com o título... e ninguém tem certeza de nada. Você já parou para analisar como as informações fluem por sua vida diariamente? Que grande impacto recebemos de notícias que até minutos atrás não tinham a menor importância e de uma hora para a outra tomam conta da mídia e passam a causar mudanças de comportamento? Já tentou entender a dinâmica? Pois somos pródigos, nós, brasileiros, em pensar pouco e agir muito. Damos aos fatos dimensões muito maiores do que as que realmente deveriam ter. E nessa esteira de ignorância, que a gente teima em chamar de entusiasmo, vamos criando um cenário de samba do crioulo doido, onde ninguém consegue explicar como é que certas coisas acabam acontecendo. Me divirto sempre que lembro daquele fatídico janeiro de 1999, quando da desvalorização do real, quebrando a perna de muita gente. Os economistas logo começaram a pregar que ia acontecer isto e aquilo porque no México tinha sido assim, na Coréia assado e aqui não ia ser diferente. Dólar alto, inflação nas alturas e desemprego elevado. Poucos dias depois, lá estava o Malan na televisão, preocupado porque o dólar estava baixando (isso mesmo, baixando!) rápido demais... O Brasil não apenas NÃO repetiu o que aconteceu com os outros países, como recuperou-se numa velocidade impressionante. E os alarmistas ficaram sem saber o que falar. Mas, nesse embalo, sobrou para todos nós. Mais uma vez o Brasil ia quebrar. E rápido. E lá fomos nós: suspendeareformacancelaaviagemnãovaiaocinemanãocompraatevênãotrocadecarro... Lá vem o Brasil, descendo a ladeira... Temos memória curta. Temos baixa estima. Temos complexo de inferioridade. E, além disso, ouvimos o galo cantar, não se sabe onde, mas, por via das dúvidas, já levantamos e vamos pra roça. Meus amigos que vivem nos EUA são unânimes em afirmar que sentiam medo da guerra, do Antraz, do Bin Laden, quando assistiam a Globocabo, a Rede Globo transmitida por satélite. O noticiário brasileiro é alarmante, exagerado, gritado, carregado nas tintas... ...lá vai o Brasil, descendo a ladeira. Pois eu desenvolvi uma teoria que sempre tento aplicar quando recebo informações de qualquer que seja a fonte. É a teoria dos quatro rês, cujo enunciado é: notícias sem relevância, passadas por gente que não tem responsabilidade, aceitas por todos sem reserva, obtêm ressonância desproporcional. Assim que recebo uma notícia, busco mentalmente passar por um filtro que tem quatro palavras começadas por “RE”. Relevância: que importância tem essa notícia ou fato para mim, minha comunidade, meus amigos, meu País, o mundo? Responsabilidade: quem é a fonte dessa informação? Que responsabilidade tem quem a está passando para mim? Que autoridade ou credibilidade tem essa fonte para que eu nela acredite? Reserva: com que cuidados devo receber essa notícia? Que tipo de precaução devo tomar antes de acreditar e sair agindo? Ressonância: como devo disseminar essa notícia? Que tipo de amplitude devo dar a ela? Pois sabem o que a gente vê no Brasil? Notícias sem a menor relevância, passadas por gente sem a menor responsabilidade, são aceitas pela população sem qualquer reserva e recebem uma ressonância desproporcional à sua importância. Aí, ninguém entende porque baixa a cotação da bolsa, aumenta o dólar; cai o ministro, quebra a empresa, o crescimento é protelado, a escola é fechada, o desemprego aumenta... com base em versões que nós mesmos transformamos em fatos que fazem todo mundo correr para tentar evitar o inevitável. Olha, meu amigo, tente aplicar a teoria dos quatro rês quando você se deparar outra vez com aquelas afirmações de que “temos aqui cents milhões de miseráveis” ou “pelo andar da carruagem, vamos ter zints milhares de desempregados” ou “no final do ano, o dólar vai estar a mibs reais” ou “prevemos o crescimento de glics por cento no PIB”. Aplique-a toda vez que você ler, ouvir ou observar uma situação que começa com um “eu acho” ou “na opinião de fulano”. Dê uma checada nas referências e fontes. Olhe as tendências e não os números absolutos; procure entender o contexto e, principalmente, esteja certo do seguinte: qualquer um de nós, do alto de nossa ignorância, tem a mesma chance de acertar as previsões alucinadas que qualquer desses economistas, políticos ou criaturas abençoadas por Deus que saem por aí espalhando seus “eu achos” têm. Ao tomar suas decisões, lembre-se da história do velho senhor no leito de morte, dizendo: - “Minha vida foi repleta de problemas. A maioria, nunca aconteceu.”

Capítulo 34 O Jornalista Afogados na informação, perdemos a capacidade de encontrar aquilo que é importante. Uma visão diferente — como se fôssemos jornalistas — para tratar os fatos ajudaria a escapar da mediocridade. Li outro dia que o volume de informações contido numa edição de um grande jornal é equivalente ao volume de informações que um indivíduo acumularia durante TODA a vida no século 17... é mole? Exercendo meu papel de diretor numa grande empresa, lido diariamente com o desafio de filtrar o volume imenso de informações que recebo. Depois do advento do e-mail, essa tarefa tornou-se impossível. Tudo passou a ser muito rápido, o acesso à informação é irrestrito. Você tem o que quiser, na hora em que desejar, na profundidade que precisar, no idioma escolhido... e até o que NÃO quiser... Esse volume de informações é impossível de ser administrado. Não dá e ponto. E como é que a gente faz? É característica do brasileiro aplicar pouco ou nenhum tempo na reflexão sobre as informações de que dispõe. Estudar, comparar, discutir, investir tempo na tentativa de projetar cenários futuros... não, isso não é coisa de brasileiro. E, com tanta informação disponível, Deus me livre! Dói! Mas meu ponto aqui é outro. O problema não é apenas lidar com tanta informação. É a forma como GERAMOS essa informação. Nasci filho de jornalista e virei jornalista. No entanto, desde 1979, trabalho em marketing, nunca tendo exercido a profissão de jornalista, a não ser publicando artigos aqui e ali, sem que isso tenha sido meu ganha-pão. Uma coisa, porém, não posso negar: tenho veia jornalística. Aquela capacidade de observar o detalhe, de exercer a curiosidade pensando com a cabeça dos outros... o que será que meus leitores querem realmente saber? Atribuo principalmente a essa característica o sucesso que porventura eu tenha tido em minha carreira. A outra parte vem do fato de eu ter sempre jogado no gol, mas isso é outra história. Tenho uma tese de que a veia jornalística é fundamental para o dia-a-dia de qualquer atividade que exercemos. Jornalista é aquele chato, intrometido, que sempre aparece nas piores horas para botar mais lenha na fogueira. Aquele cara que vai contar pra todo mundo o lado ruim do que aconteceu. Mas quando o jornalista é bom, ele não conta só o lado ruim. Nem conta só o que aconteceu. Ele conta por que, onde, como, quem, quando, quais as conseqüências. Ele trabalha pensando no seu leitor, nas dúvidas que estarão passando pela cabeça de quem vai ler sua matéria. Fico imaginando se nós, que gerenciamos e dirigimos empresas, tivéssemos um pouco desse sangue nas veias. A postura investigativa, a curiosidade, a capacidade de edição, de praticar o inter-relacionamento de informações que tem um (bom) jornalista. Talvez fôssemos mais capazes de oferecer a nossos clientes algo mais consistente, que verdadeiramente agregue valor a nossos produtos e serviços: INFORMAÇÃO RELEVANTE. Mas isso é sonho. É alarmante a incapacidade que a grande maioria das pessoas tem de não conseguir trabalhar as informações que passam adiante. Do jeito que recebem, passam pra frente. Não existe preocupação em interpretar, adaptar, colocar a informação no nível do receptor. Se não temos esse talento, por que não contamos em nossas equipes com gente com o talento jornalístico para tratar as informações antes de passá-las para o mercado? Se não temos essa capacidade, por que só as escolas de comunicação têm a disciplina COMUNICAÇÃO em seus programas? Por que a habilidade de comunicar está colocada dentro da mesma cesta dos treinamentos "comportamentais" que são secundários diante dos treinamentos técnicos exigidos pela miopia gerencial do brasileiro? Porque somos ignorantes. Porque achamos que nascemos sabendo tudo de comunicação. Afinal, não somos capazes de falar? Pois, ao ignorar a importância da comunicação, ajudamos a transformar aquele mundo de informações que nos esmaga em algo ainda mais complexo e cabeludo. Tenho convicção de que é isso que está por trás de alguns dos grandes problemas que o Brasil enfrenta historicamente: gente que não é do ramo lidando com temas delicados e comunicando-se com incompetência infinita. Taí, por exemplo, a cruz que FHC, o maior administrador da oitava maior empresa do mundo, carregou em seu segundo mandato: cheio de realizações boas, de números e tendências positivos, de conquistas importantes para o futuro, mas um desastre em comunicação. Informações truncadas, faltantes, manipuladas, ininteligíveis, em excesso... tudo errado. Informação que o cliente — o povo — não consegue entender, não consegue encontrar. Resultado: pau no presidente, crise . Ah, se nós fôssemos menos engenheiros, menos advogados, menos médicos, menos administradores, menos contadores, menos matemáticos, menos professores, menos políticos... Ah, se nós fôssemos mais jornalistas... Os leitores agradeceriam.

Capítulo 35 Três Cês Comunicação, conteúdo e colaboração. Remédios infalíveis contra a mediocridade que atravanca nosso progresso. Já escrevi sobre a dificuldade de lidar com o volume de informação que nos esmaga diariamente, e sobre a incompetência que as fontes dessas informações têm em torná-las acessíveis e inteligíveis para o interessado. Mas tem um outro problema, que é tão ou mais importante: a confusão que todos fazemos entre DADOS e INFORMAÇÃO. Dados normalmente são números frios que, trabalhados e colocados em perspectiva, podem transformar-se em informação. Mas quem deveria fazer com que isso aconteça, não faz. Trabalhamos olhando para dados perdidos, fora de contexto ou não relacionados e tomamos decisões sem embasamento, na maioria das vezes usando a velha intuição. Falta de tempo? Não. Falta de cultura? Sim. Falta de experiência? Sim. Falta de capacidade? Sim. Repare só na sua empresa: como é que são feitas as previsões de vendas? Ou de crescimento de mercado? Ou de participação de mercado? Não tem sempre alguém que bota um “... eu acho?” Pois é. E se os dados que ele viu são ruins, o “eu acho” dele é ruim. Se os dados são bons, o “eu acho” dele é bom. Mas continuam sendo “eu acho”. Eu tive um chefe, o Paulo Regner, que dizia com muita propriedade: “Acho por acho, acho eu que sou mais que tu”. É dessa forma que surgem os apagões: das avaliações apressadas, sem base, no “achismo”. Culpa de quem acha? Sim. Mas culpa também de quem pensa estar disponibilizando informações, quando na verdade está fornecendo dados. Dados e informações maldistribuídos, fora de contexto, complexos, ininteligíveis e frios. E raramente recebemos ou damos atenção ao retorno de nosso público-alvo. Bem-vindos ao Brasil. Pessoalmente, quebrei a cuca durante anos para entender como tratar esse problema. Acabei desenvolvendo um plano que chamo de C3. Procuro sempre focalizar meus esforços nos " três cês" que usei como título deste artigo. O primeiro C é de COMUNICAÇÃO, da necessidade que temos de fazer com que os canais de comunicação múltiplos sejam integrados, que sejam mãos de duas vias, que levem a informação para fora, mas a tragam para dentro também, que sejam um canal para falar aos interlocutores (clientes, fornecedores, empregados, etc.), mas para ouvi-los também. E com a Internet isso ficou muito mais fácil. Está até ganhando um nome mais pomposo: conectividade. Ainda bem que é com “cê”. O segundo C é de CONTEÚDO. Esse é o maior desafio. Temos de interpretar os dados e transformá-los numa história fluente, com começo, meio e fim. Com humor, com inteligência, com consistência. Algo que instigue o leitor, que chame a atenção, que traga embutido um valor que ele certamente saberá apreciar. Experimente ler os textos constantes em seu catálogo de produtos, na sua página de Internet, no seu relatório anual. Provavelmente você vai ver o outro lado: como NÃO fazer... Textos longos, chatíssimos, sem humor, sem relevância, focados no próprio umbigo, sem apelo... O terceiro C é de COLABORAÇÃO. Construir uma rede de relacionamentos que proporcione as fontes de informação para seu trabalho. Fontes que preservamos e respeitamos e que garantem a riqueza de dados que transformaremos em informação. Como é que isso se traduz para o nosso dia-a-dia? Na relação fornecedor—cliente? Experimente pensar sobre o relacionamento com seus clientes, seus fornecedores, sob a ótica da colaboração. Com certeza, a maioria daquilo que você pensou que era colaboração não passará da troca simples e fria de dados... Colaboração é mais que isso. É construir e compartilhar o sucesso e o fracasso. E nós, brasileiros, estamos longe disso. Os gringos também, mas eles são mais espertos. Criam as tendências atrás das quais nós saímos correndo... Esses “cês” estão interligados. Comunicação sem conteúdo é perda de tempo. Conteúdo sem colaboração envelhece. Colaboração sem comunicação inexiste. Os três implicam numa incessante busca por interatividade, por riqueza de informação, por fornecer algo que AGREGUE VALOR aos nossos interlocutores. Só assim vamos nos diferenciar, pela inteligência, no mar de mediocridade que assola nosso mercado, nossa comunidade, nosso País.

Capítulo 36 O Ogro O Brasil tem ou não tem jeito? Com certeza a resposta está na forma como o analisamos. Se for uma análise medíocre, teremos um Brasil medíocre... Ando de saco cheio. Isso acontece sempre que tem ano de eleição e somos bombardeados por um blablablá que seria cômico, não fosse trágico. Especialmente durante umas semanas, ao longo de 2002, vivi situações ímpares. Veja só: Numa viagem ao Rio Grande do Sul, estive em Canoas, na ULBRA (Universidade Luterana do Brasil), visitando o Museu da Tecnologia. O adjetivo ESPETACULAR dá uma pequena idéia do que vi lá. Coisa de primeiro mundo. Começando pelo Campus da Universidade, pelo volume de estudantes, pela qualidade do restaurante... Coisa de primeiro mundo. Voltei para São Paulo e, no mesmo dia, fui almoçar com um conhecido no Ecco, na Rua Amauri. Cheguei por volta do meio-dia de uma sexta. Restaurantes lotados, uma Ferrari estacionada na frente de um deles, e gente entrando e saindo como um formigueiro. Me senti no primeiro mundo. Na outra semana, voltando ao Rio Grande do Sul, visito o Museu da PUC. FABULOSO! Uma maravilha, totalmente interativo, um material de primeiro mundo, deixando quase nada a desejar para outros museus que visitei nos Estados Unidos e Europa. Pouco depois coordenei a participação da empresa onde trabalho, a Dana, na Agrishow, no final de abril, em Ribeirão Preto. É considerado hoje o terceiro mais importante evento do agribusiness mundial. Uma loucura, com gente do mundo todo, helicópteros e aviões subindo e descendo freneticamente e negócios de milhões de dólares sendo fechados. Aí, viajo na Páscoa para o Rio de Janeiro, Barra da Tijuca. Eu não ia lá desde 1976... Penso estar em Miami. Shoppings para todo lado, movimento frenético, noites animadas, restaurantes às dezenas... primeiro mundo. Aí, visito a FEICON, em São Paulo, a feira de material de construção no Anhembi. Não consigo ver nem um quarto daquilo. Gigantesco. Milhares de pessoas, centenas de empresas, movimento febril, lançamentos de produtos, uma hora para conseguir estacionar o carro... Dias antes, fiz uma palestra no Almenatti, centro de eventos no Embu, em São Paulo. Maravilhosa estrutura, com hospedagem, alimentação e salas para treinamento, área de lazer, excelente. Coisa de primeiro mundo. Encontro amigos que retornam do evento de lançamento de um novo automóvel, na Costa do Sauípe, no complexo de hotéis recém-inaugurado na Bahia. Adjetivos? De inacreditável para cima. Primeiro mundo! Vou para o Rio de Janeiro, na largada do Volvo Ocean Race. A Fórmula-Um da vela. Hotéis lotados, janto no Copacabana Palace... cheio de hóspedes. Sinto-me no primeiro mundo. Ufa! Nada como viver no primeiro mundo! Mas, toda noite, ao voltar para casa, ligo a tevê, vejo a revista ou o jornal, e sou jogado de volta ao terceiro mundo, que é o lugar do Brasil. Só porcaria. A Veja com uma capa em preto e branco (a cor da pobreza) com duas crianças sob o título garrafal: “MISÉRIA”. E depois a matéria tratando de bolsões de pobreza, dizendo que estão localizados principalmente no Nordeste. Nos noticiários, o MST refestelado na fazenda de FHC e depois vociferando contra a injustiça do sistema e prometendo mais invasões. Aí, entra o programa do PT no ar. Impecável do ponto de vista técnico. Mas se estivesse falando da Somália seria perfeito. Só o lado miserável. Depois, a gota d`água. A capa da Época, com a grande revelação do ano, o Kleber, vencedor da primeira edição do Big Brother Brasil da Rede Globo. O título? “UM BRASILEIRO.” E, para piorar, o outdoor da revista: “ELE ERA A IMAGEM DOS BRASILEIROS. AGORA É O SONHO”. Eu fiquei indignado! Primeiro porque se esse ogro é a minha imagem, vou mudar de nacionalidade. Segundo: tive um banho de Brasil de primeiro mundo nos últimos dias, SEM IR ATRÁS. Eu não procurei por esses lugares maravilhosos. Estava a trabalho e trombei com pessoas, organizações e processos que são de primeiro mundo e que trazem uma riqueza que é de se orgulhar. Mas não vi ninguém falando deles. Vinte e três milhões de miseráveis dá manchete?  E os 140 milhões de não-miseráveis, dão o quê? Trezentos sem-terra fazem barulho? E os milhares de assentados fazem o quê? O marido da candidata é suspeito e joga na cara da gente a impunidade do sistema? E os políticos cassados, presos e eliminados do jogo nos últimos anos, fazem o quê? Agora, para culminar, vem essa história de colocar um Zé Ninguém, inventado pela TV, como o estereótipo do brasileiro: o bonzinho, sem estudo, grandão, bobão e desocupado. Olha, se o editor que fez aquela capa e os jornalistas que repetem essa asneira identificam-se com o ogro, poupem-me. Não me julgo ignorante, nem sem estudo, tampouco sou bobalhão e desocupado. Pelo contrário, trabalho como um louco e tenho consciência de que meu país tem um monte de problemas que precisam ser resolvidos. Mas, pelo amor de Deus, a gente está MUITO melhor do que estávamos cinco, 10 ou 30 anos atrás! Em abril de 2001 eu estava no Nepal. Indo numa caminhada até o Campo Base do Everest. Saí de pouco mais de dois mil metros de altura para atingir o ponto máximo de 5.400 metros, na base da maior montanha do mundo. A trilha é de subidas e descidas terríveis, íngremes. O cansaço atinge proporções que não se imagina. Aí, a gente chegava extenuado ao pé de outro subidão. Olhava para cima e dava vontade de desistir. Mas ia subindo, devagarzinho, um pé... o outro... respiração pausada... outro pé... e ia indo, até chegar lá no alto. Aí, tinha de  descer um monte para depois subir outra vez... Sabe o que eu aprendi? Primeiro, em vez de ficar olhando para cima para ver quanto faltava, comecei a olhar para baixo e ver o quanto eu já havia subido. Era estimulante, motivador e me dava gás para ir cada vez mais longe. Depois, ao ver que após cada subida tinha uma descida, e outra subida, entendi que descer era parte da grande subida ao Everest. A gente tinha de descer para poder subir mais! Descer faz parte da trilha, faz parte do jogo, não é negativo, não é o fim nem desestimulante! Pois o que falta para nós, brasileiros, é exatamente esse entendimento. Aprender com o passado, em vez de esquecê-lo. Celebrar nossas conquistas, em vez de ficar permanentemente maldizendo os fracassos. Enfrentar e ajudar a mudar a realidade, em vez de ficar sofrendo com nossa incompetência, lançando a culpa nos outros. E MUDAR o futuro, em vez de aceitá-lo. Quando a gente aprender a valorizar as nossas conquistas, talvez descubramos que o destino do Brasil não é traçado por Klebers, nem por miseráveis e nem por ladrões. É traçado por brasileiros que acreditam que podem construir e viver um Brasil muito melhor. Como aquele que eu conheci naquelas semanas.

Capítulo 37 A Carta Resposta que enviei em abril de 2002 a uns leitores que me criticaram ferozmente por causa de meu artigo “O Ogro”. Em essência, os críticos não concordavam em que eu falasse do lado do Brasil que dá certo. Me chamaram de almofadinha, alienado, executivo deslumbrado... Tudo por eu ter cometido a audácia de dizer que o Brasil tem coisas positivas. Talvez essa seja uma das explicações para nossa mediocridade: a incapacidade de aceitar que, talvez, não sejamos vira-latas... Prezados Fulanos, Peço a vocês que leiam o meu artigo outra vez, com cuidado. Vão ver que o que escrevi é: não vivemos num mar de rosas, e PRECISAMOS lutar contra a percepção generalizada de que vivemos num mar de merda. Nem tanto o céu, nem tanto a terra. Permitam-me repetir o final do artigo: “Aprender com o passado, em vez de esquecê-lo. Enfrentar e ajudar a mudar a realidade, em vez de ficar sofrendo com nossa incompetência e lançando a culpa nos outros. E MUDAR o futuro em vez de aceitá-lo. Quando a gente aprender a valorizar nossas conquistas, talvez descubramos que o destino do Brasil não é traçado por Klebers, nem por miseráveis e nem por ladrões. É traçado por brasileiros que acreditam que podem construir e viver um Brasil muito melhor. Como aquele que eu conheci nas últimas semanas.’ Temos que reagir de alguma forma contra a imagem que nos é passada diariamente de que somos SÓ miseráveis, incompetentes, ladrões ou corruptos. Não conheço nenhum time que ganha jogo sem estar motivado ou acreditando que é composto de gente despreparada. E é isso que a mediocridade quer que sejamos: fracos, ignorantes e incapazes de gerenciar nosso destino. Não acho que seja um complô. Acho que é BURRICE mesmo. E acabar com a burrice, faz parte da missão de quem ainda vê ESPERANÇA neste mar de mediocridade que querem que o nosso país pareça. Eu não sei o que vocês estão fazendo a respeito. Eu estou me mexendo. Sabe fazendo o quê? Escrevendo e fazendo palestras, inclusive para a turma de menos favorecidos. Pelas minhas contas, já falei para mais de 25.000 pessoas em palestras que têm como objetivo sugerir a reflexão não superficial sobre os problemas que assolam o Brasil. Palestras para dividir com eles uma outra visão do país, diferente daquela dada por pessoas derrotadas antes de entrar em campo. Para que eles entendam que têm o poder de mudar alguma coisa, se ajudarem a tirar fora os maus políticos, os maus empresários, os maus funcionários, sem precisar roubar, matar ou violentar. Você já parou para pensar que o mesmo raciocínio, sobre quem é o mais espertinho, o mais engraçadinho, o mais pobrezinho, que elegeu o tal Kleber ou o Dhomini no Big Brother Brasil, elegeu o Presidente da República? Não é assustador? Tenho discutido a respeito da nossa nação com pessoas que têm alguma influência e que SE IMPORTAM com os destinos do País e não têm tempo a perder jogando a culpa nos "poderosos". Gente que, como eu, se incomoda em viver num país de derrotados e de gente que odeia quem teima em ver ESPERANÇA onde os medíocres vêem complôs, maquiavelismos e maldade. O discurso de vocês tem rancor. Rancor que faz parte de uma ideologia que caiu com o Muro de Berlim. Mudar o sistema, só estando DENTRO dele. Falando a respeito, escrevendo, publicando e discutindo. Sem medo de expressar sua indignação contra aqueles que querem manipular a realidade. Cortem esse papo de manés pouco favorecidos e incapazes. Juntem-se às pessoas que estão preocupadas em mudar o país, e preocupem-se menos com o status dos que se propõem a discutir o assunto e mais em entender os textos que lêem.” Putz... este texto é de abril de 2002. Muito antes das eleições! Muito antes de o Duda Mendonça apropriar-se do termo ESPERANÇA e transformá-lo num bordão eleitoral... Que coisa. Esse papo é PT...

Capítulo 38 Eu, Burro Nelson Rodrigues falou do complexo de vira-lata do brasileiro. É impressionante o talento que temos para reduzir a nada nossos valores, nossas conquistas. Somos medíocres por opção, gente de segunda classe? Uma pesquisa da Young & Rubican apresentou estatísticas sobre o que os brasileiros e os norte-americanos pensam da “marca Brasil”. Os brasileiros acham que o Brasil é MENOS dinâmico, inovador, com prestígio, sensual e útil do que acreditam os norte-americanos. Lembrei-me que a empresa onde trabalho, a Dana, fechou um acordo com a Troller, fabricante dos jipes 4x4 do Ceará. Os cardans e os diferenciais são Spicer, fabricação Dana, e partimos para a conquista do Campeonato Mundial de Rally Cross Country em 2001. Em setembro daquele ano, a equipe Dana—Troller já era campeã por antecipação, com mais que o dobro da pontuação sobre o segundo colocado. As outras equipes corriam com Mitsubishi, Nissan, Toyota, Renault, Ford, Land Rover... E a nossa, a menor e menos estruturada equipe do campeonato, papou o título. Uma equipe 100% brasileira ganhou das grandes marcas mundiais! Uma semana depois, com o jipe em uma de nossas fábricas, encontramos um engenheiro de uma grande montadora. “Por que vocês não patrocinam os NOSSOS carros? Isso aí é uma gambiarra, a fábrica é uma boqueta!” Vejam só como é ser brasileiro... Se isto aqui fosse os EUA, o presidente Bush estaria condecorando os pilotos e os engenheiros da Troller na Casa Branca, com um discurso inflamado exaltando o espírito empreendedor e a coragem dos que ganharam das grandes potências mundiais. Com direito a hino, salva de tiros e CNN transmitindo para todo o mundo. Milhares de bandeirinhas seriam distribuídas. Que orgulho! Como aqui é o Brasil, o título mundial não tem significado. É uma gambiarra. O que vale é o que vem de fora, projetado numa grande cidade dos EUA, da Europa ou da Ásia e adaptado aqui. Qualquer coisa feita por brasileiros não é digna de crédito. Aí ficamos com cara de palermas, tentando entender por que, com o dólar tão caro, não conseguimos quebrar todos os recordes de exportação. Por que, com tantas praias, matas e natureza, recebemos quase a mesma quantidade de turistas que a Argentina? Por que lá fora só se fala do menor abandonado, do índio que apanha, da rebelião na detenção, da plataforma que afundou, da violência ou das bundas das mulheres, do sexo liberado, da música, da cerveja e do futebol? Pensem bem... o Brasil só recebe referências positivas quando falamos da beleza natural, das praias, das mulheres, do sol... das coisas que Deus criou. Quais são as referências criadas pelos brasileiros? Onde estão os brasileiros que causam impacto lá fora? Não há. Os pouquíssimos que restam com alguma expressão estão com 60, 90 anos... nada mais apareceu. Nada mais produzimos. Massacrados pela mídia, agarramo-nos desesperadamente ao piloto de Fórmula-Um1. Ao tenista abnegado — uma exceção que deu certo. Ao jogador de futebol que parou de jogar há 30 anos. À grande atriz que quase ganha o Oscar. Todas pessoas especiais, únicas, que começaram sem apoio, sem credibilidade e, por mérito pessoal, chegaram lá. E se aqueles dois aviões batem nas torres aqui no Brasil? Seríamos a chacota do mundo. Onde mais alguém consegue seqüestrar um avião usando canivete? E se aquelas eleições para presidente nos Estados Unidos tivessem sido aqui? E se o Bin Laden fosse brasileiro e estivesse escondido numa caverna no Mato Grosso? E se aquele navio da Exxon que quase acabou com o meio ambiente fosse de uma empresa brasileira? E se o Kurski, o submarino russo, fosse brasileiro? E se o Michael Jackson, com aquelas plásticas, fosse brasileiro? Pois é, fico imaginando quem mais, além dos brasileiros, é tão burro a ponto de falar mal de seu país, de sua casa, de sua propriedade, de sua gente, de suas conquistas para desconhecidos. Se mais alguém é tão burro a ponto de não reconhecer o mérito daqueles que, a despeito de todas as dificuldades, falta de recursos e ignorância, conseguem sobressair-se diante dos mais preparados. Se mais alguém é tão burro a ponto de se achar burro. Pobres de nós, burros.

Capítulo 39 Corrente pra Trás Mais um daqueles exemplos históricos de que brasileiros medíocres e burros moldam realidades mentirosas e criam a falsa impressão de que somos, sim, gente de segunda classe. Participei de uma reunião com Wilson Fittipaldi outro dia. Wilson é cativante e não pude resistir a fazer algumas perguntas sobre nossa brasileiríssima equipe Fittipaldi. Quando o Copersucar estreou, em 1973, eu tinha 17 anos. E quando parou, em 1982, eu tinha 25. Foram os áureos anos da Fórmula-Um romântica. E, pelo menos na minha cabeça, o que ficou foi a imagem do carro brasileiro que quebrava, quebrava, e não chegava... Wilsinho foi enfático em colocar que o problema daquele sonho brasileiro foi muito mais de credibilidade do que qualquer outra coisa. A falta de visão da mídia brasileira, de pessoas que conhecessem os meandros da F-1, acabou criando uma imagem de equipe fracassada, contaminando os possíveis patrocinadores. Ninguém deu moleza para uma equipe de perdedores e deu no que deu. Aquela porcaria só quebrava... Fiquei curioso e fui fazer um levantamento para verificar os fatos. Olha o que eu descobri. Em oito temporadas, a equipe Fittipaldi acumulou 44 pontos, sendo um segundo lugar, dois terceiros lugares, cinco quartos lugares, quatro quintos lugares e sete sextos lugares. Enquanto isso, a Williams, atual potência da categoria, marcou apenas 21 pontos em seis temporadas (1973-78), antes da chegada do patrocínio milionário dos árabes em 1979. A Fittipaldi terminou o Mundial de Construtores de 1978 com 17 pontos, à frente da McLaren, Williams, Renault e Arrows. E o Mundial de Construtores de 1980 com 11 pontos, à frente da Ferrari e Alfa Romeo e empatada com Mclaren e Arrows. Emerson terminou o campeonato de estréia pela equipe, em 1976, empatado com Carlos Reutemann (Brabham-Alfa Romeo) com três pontos. O campeonato de 1978, empatado com Gilles Villeneuve, da Ferrari, com 17 pontos (nono na geral) e à frente de pilotos da Williams, Renault, McLaren e Tyrrel. O campeonato de 1980, na mesma colocação que Alain Prost, da McLaren, com cinco pontos (15º na geral) e à frente de pilotos como Mario Andretti, da Lotus. A equipe Fittipaldi foi formada por profissionais como Emerson Fittipaldi, duas vezes campeão mundial de Fórmula-Um, duas vezes vice; Keke Rosberg, que trocou a Fittipaldi pela Williams, em 1982, e foi campeão do mundo; Jo Ramirez, chefe de equipe, considerado por Senna o melhor de todos; Ricardo Divila, projetista, já conquistou mais de 20 títulos no automobilismo mundial; Adrian Newey, projetista em 1979 e 1980, faturou os mundiais de 92, 93, 96 e 97; Harvey Postlethwaite, projetista em 1980 e 1981, na Ferrari, conquistou o Mundial de Construtores de 82. A equipe Fittipaldi acumulou um índice de quebras ao longo de sua história de 33,3%. Enquanto isso, a Jordan teve 44,5%, a Sauber 44,4%, a Williams 35% e a Ferrari 34,5%. Pô, meu, talvez a memória que eu tenho do Copersucar seja injusta... Talvez o Wilsinho não esteja com dor-de-cotovelo. “Ninguém nos conhecia, o que sabiam era o que saía na mídia, E quando nós mais precisávamos, quem é que ia querer fazer negócio com gente que era motivo de piada?” Pô! Outro dia escrevi um artigo (intitulado “Eu, burro”), tratando exatamente dessa espécie de morbidez do brasileiro que teima em não dar valor às conquistas de seus conterrâneos. Como exemplo, eu citava a conquista do Campeonato Mundial de Rally Cross Country pela equipe Dana—Troller em 2001. Uma conquista que não teve repercussão fora do círculo dos amantes de rallies e que foi ridicularizada por algumas pessoas que não admitiam um carro fabricado no Brasil sendo comparado às máquinas das grandes montadoras. No caso do Copersucar, a situação era bem diferente. O que não faltou foi mídia, divulgação, que acabou criando uma expectativa sem precedentes. E, se existe uma coisa que brasileiro não perdoa, é expectativa frustrada... Por isso achamos que vice-campeonato é derrota. Fico imaginando como é que se forma essa “corrente pra trás” que acaba criando uma torcida CONTRA os conterrâneos que estão tentando alcançar seus objetivos. Uma hora é porque são incompetentes mesmo, outra é porque são preguiçosos. Aí, é porque ganham muito dinheiro ou, então, porque são medrosos... Retomando a conversa com o Wilsinho, como é que essa percepção de incompetência, preguiça e medo é formada na opinião pública? Pensem bem... Que demonstrações públicas, inequívocas, evidentes, de medo, incompetência ou preguiça vocês já viram, ao vivo e em cores, dos nossos conterrâneos ao enfrentarem adversidades nas competições esportivas com gente de maior gabarito? Aposto que o choro da derrota, o suor do esforço, a explosão de ira pela busca pela vitória, o sangue do excesso ou as lágrimas do sucesso de brasileiros vocês já cansaram de ver. E essas demonstrações são de quê? Será que os Fittipaldi choraram? Suaram? Sangraram? Ficaram irados? Fizeram tudo pela vitória? Ou terão tido medo? Incompetência? Preguiça? Dinheiro em excesso? Por que viraram piada? Por que ficaram com a imagem de perdedores com o Copersucar? Porque alguém CONTOU que eles eram motivo de piada. Alguém contou que a equipe Fittipaldi era fraca, incompetente, perdedora. Do mesmo modo como nunca nos contam que os adversários são ganhadores. Brasileiro perde porque é fraco. Nunca porque o adversário é forte. O Popó, campeão mundial, vive procurando patrocinador. A Danielle Hipólito, vice-campeã mundial, idem. O que eles pedem por ano é mais ou menos UM salário mensal de um jogador badalado de um grande time brasileiro. O que eles não têm é CREDIBILIDADE. A mesma máquina que nos convenceu que no futebol brasileiro é campeão do mundo, e que valorizou jogadores em escala global, permanece tímida diante dos talentos que têm tudo, menos CREDIBILIDADE. E, agindo assim, não lhes dá a chance de construir a mesma credibilidade que, à despeito das falcatruas, tem o futebol. Assim fica impossível sedimentar uma estrutura capaz de continuar gerando campeões. Ah, se o Popó ou a Danielle fossem ingleses, franceses, russos, alemães, ARGENTINOS... Olha, Wilsinho, se você um dia ler este texto, saiba que eu mudei. Deixei a ignorância de lado, procurei conhecer os fatos e hoje tenho orgulho do Copersucar. Orgulho de ter deixado a ignorância de lado.

Capítulo 40 As Lixeiras Minha cozinha tem uma lixeira. Mas minha cozinha não se resume à lixeira. Sou um privilegiado. Em 2002, estive em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Maceió, Salvador, Vitória, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Uberlândia, Bauru, Campinas, Sorocaba, Resende, São José dos Campos, Curitiba, Joinville, Porto Alegre, Bento Gonçalves e Gramado. Sempre a trabalho, na maioria das vezes convidado para fazer uma palestra em algum tipo de evento. A qualquer momento, podia dar de cara com o Lula. Ele também estava viajando pelo Brasil. Mas tinha uma diferença: ele viajava para ver o lado ruim, as coisas que não vão bem. Já eu estava vendo as coisas boas do Brasil. Encontrei em todo lugar grupos de pessoas que estavam fazendo algo acontecer. Eram grupos de solidariedade em Manaus, tratando de creches, de crianças doentes, de velhinhos. Eram associações de mecânicos no Nordeste, promovendo treinamentos e discussões para aprender mais. Eram associações de pessoas empenhadas em programas de proteção ao meio ambiente. Em Maceió, participei de um evento organizado por uma ONG, a Endeavor, empenhada em promover o empreendedorismo criativo. Mais de 300 pessoas reunidas, discutindo formas de incentivar o empreendedorismo pelo Brasil, formas de incentivar o cooperativismo. Em Curitiba, assisti à assinatura de um convênio da Federação das Indústrias, da Fundação Getúlio Vargas e de um grupo de empreendedores para a promoção de ações de incentivo à formação de novas empresas. Iniciativa privada, escolas e cidadãos juntos. Em Uberlândia, presenciei um evento regional da distribuição de autopeças, com gente de todo o Brasil, fomentando novos negócios. Em Vitória, participei de um evento com mais de 800 pessoas, discutindo temas e melhores práticas relacionadas ao futuro do mercado de reparação de veículos do Brasil. Olha, eu poderia fazer aqui uma lista infindável de exemplos de gente que está fazendo acontecer pelo Brasil, mas vou ficar com um que é bastante significativo: o Rio Grande do Sul. Em Bento Gonçalves, assisti ao discurso emocionado do líder da Todeschini — fabricante de móveis para cozinhas — apresentando a seus 500 funcionários o projeto da nova fábrica. Com o equipamento mais moderno do mundo, seria inaugurada no final de 2002. Em momento algum falou de crise, da troca de governo, da alta de dólar ou do FMI. Falou do sonho, da equipe e da força de vontade em fazer acontecer. Em São Leopoldo, conheci a Unisinos e fiquei boquiaberto diante da biblioteca de sete andares e do auditório com mais de 800 jovens participando ativamente de um programa de apresentações. De Gramado para Porto Alegre, fui de carona com um secretário de estado do Rio Grande do Sul. Petista de carteirinha, por mais de uma hora contou-me o que vinha acontecendo em seu Estado. Mobilizações por todo lado, visando à qualidade, produtividade, inovação. Lembrei das vezes que participei do Programa Gaúcho pela Qualidade e Produtividade, em auditórios com 800, mil pessoas discutindo qualidade. Lembrei do programa Junior Achievement, envolvendo garotos no dia-a-dia das empresas. Lembrei da Ulbra, da Unisinos, da PUC. Lembrei da Feira do Livro de Porto Alegre, com mais de dois milhões de visitantes e duas semanas de cultura... Logo depois, estive envolvido em São Paulo com a premiação do Prêmio Nacional da Qualidade, entregue pelo então Presidente FHC. Foram sete empresas finalistas. Três ganharam o prêmio: duas gaúchas e uma baiana. Presidida por um gaúcho... Aí o Lula forma seu ministério com cinco gaúchos. Tá certo, tem gente ali meio estranha, mas são cinco. Fica claro que toda aquela mobilização gaúcha, o trabalho de base, que não aparece na mídia, o investimento em cultura e educação, rende frutos. E que as próximas gerações vão saber aproveitar muito bem essa “infra-estrutura cultural" espalhada pelo Estado. Fica claro que examinar o Brasil pela ótica pequena da política e dos políticos é, no mínimo, uma grande burrice. Vocês viram a campanha eleitoral? Foi baseada nas lixeiras. O governo de FHC foi incompetente para mostrar a cozinha, e o PT competente ao mostrar as lixeiras. Por sorte, o novo Lula está fazendo pronunciamentos surpreendentes, que apontam para uma visão não destrutiva, positiva e ampla da cozinha. Olha, descobri este ano que o modelo gaúcho não é único, tem congêneres, com diferentes intensidades, pelo Brasil. Repletos de gente que não está esperando pelo governo para fazer a diferença, para fazer acontecer. O Brasil tem muitas lixeiras, sim. Mas o Brasil, ao contrário do que a mídia superficial, os políticos mal-intencionados, os derrotados, os ideologicamente confusos e os medíocres querem fazer a gente acreditar, não se resume às lixeiras. Eu sou um privilegiado. Sou testemunha de que o problema do Brasil é a visão míope, negativa, ultrapassada, derrotista e burra de quem só tem olhos para as lixeiras.

Capítulo 41 De Frente para o Vazio Quando, diante da tragédia, das perguntas, das expectativas, a gente percebe que o Brasil é um paraíso... Pena que tenha de ser assim: só damos valor às nossas coisas quando não as temos mais. Aqui estou, no “Ground Zero”, ao sul de Manhattan, onde até pouco mais de um ano erguiam-se as torres imponentes do World Trade Center. São duas da manhã. Barracas vendendo quinquilharias para todo lado. Gente do mundo inteiro olhando aquele canteiro de obras. No dia seguinte, passo por lá de novo. Com o sol brilhando, é possível perceber o tamanho da tragédia. Caminhando pelas avenidas retilíneas de Manhattan, é impossível olhar para aqueles outros prédios gigantescos sem imaginar o que foi a cena do avião entrando pela parede. O barulho infernal. A bola de fogo. E a queda do prédio. Na descrição de quem viu, primeiro, um barulho de aço torcido e, depois, uma seqüência de explosões sincronizadas, conforme cada andar vinha abaixo. E a nuvem de cinzas e pó. Em pé, de frente para aquela área imensa, vazia, a cabeça da gente vai a mil. Terá sido assim a Londres depois dos bombardeios alemães? Hiroxima e Nagasaki? O Líbano? A Sérvia? E todos os conflitos onde o homem lançou suas armas de destruição atingindo a população civil? A única e fundamental diferença: não havia uma guerra. E vem daí o choque. Houvesse a guerra, seria de se esperar. Não de se justificar, mas de se esperar. De frente para o vazio, é impossível não imaginar o que vem depois. A obra de Bin Laden foi perfeita na execução, nos objetivos, na eficiência e na capacidade de impacto. E agora, o que é que pode nos chocar? Um artefato atômico dentro da grande cidade? Pode apostar. Com conseqüências muito mais catastróficas, mas que jamais conseguirão repetir o impacto de 11 de Setembro. Pois depois das torres gêmeas, a gente está vacinado. Para mim, foi naquela data que a tevê alcançou a maioridade, ao extrapolar seu papel de mídia, de registro dos fatos, para fazer parte da ação. Aquelas imagens, transmitidas ao vivo para o mundo, foram o elemento que potencializou a tragédia, dando-lhe um alcance inimaginável até por seus autores. O 11 de Setembro foi o momento em que a televisão completou um ciclo histórico, do registro e comentário para protagonista. A tevê fez parte do plano de Bin Laden. Sem ela, o WTC não teria caído na minha sala de jantar, como caiu. Teria caído lá em Manhattan, longe dos meus. A cena do segundo avião, ao vivo, entrando na torre... quem viu aquele momento sabe que os VTs nunca terão a força da imagem acontecendo ao vivo. Agora eu estava ali, ao vivo. Vendo as milhares de oferendas penduradas nas paredes próximas ao local, as fotos dos que morreram com os bilhetes de seus familiares, uma bandeira do Brasil com várias frases escritas, solidarizando-se, uma garota, cara de chinesa, pendurando um bilhete na cerca com palavras de amor e conforto para alguém que morreu ali. Imagino que o mesmo tenha acontecido em todas as outras tragédias que o mundo assistiu. Mas, ali, de frente para o vazio, num país que não é o meu, minha cabeça foi a mil. Aquele canteiro de obras é uma cicatriz gigantesca. Só dói mais que as tragédias do Oriente Médio, da África, da Europa Central porque foi ao vivo, em cores, atingindo gente igual à gente e não uma tribo perdida num país de nome estranho. Dói porque teve mídia... De frente para o vazio, revivo cada momento daquela manhã. Ouço os sons, sinto o cheiro, sufoco com a fumaça. Corro de medo, choro com a viúva do bombeiro, pego no colo o pequeno órfão, grito por vingança... De frente para o vazio, pergunto o que mudou depois de 11 de Setembro. E descubro, entristecido, que nada mudou. De frente para o vazio, senti meu coração oco. Louco para voltar para a paz (!), para a segurança (!), para a falta de preconceito (!) do meu Brasil. Ao menos para isso serviu aquela tragédia.

Capítulo 42 De Sortes e Oportunidades Gritam aos sete ventos os medíocres que o Brasil é um país injusto. As pessoas não têm oportunidade. Todos somos explorados. Será? Olhem em volta: a ex-governadora do Rio, agora ministra, é ex-favelada. O Presidente da República é ex-pau-de-arara, ex-metalúrgico. O maior pagador de impostos do Brasil, dono da segunda mais poderosa rede de televisão, é ex-camelô. A apresentadora mais antiga é ex-cantora de cabaré. A mais nova distribuía propaganda no farol, namorou o campeão e hoje está em horário nobre. A dupla sertaneja milionária colhia tomate em Goiás. O escritor mais famoso era hippie e letrista de rock. O craque milionário, ídolo mundial, veio do campinho de terra, na periferia da cidade grande. Nosso campeão mundial na Fórmula-Um montava os próprios carros, corria com carros “emprestados” de outros. Nosso campeão mundial de boxe veio do nada... Quantos diretores e gerentes de grandes empresas são filhos de empregadas domésticas ou de pequenos comerciantes informais ou de pais semi-alfabetizados? Você conhece algum? Eu conheço vários. Muito mais do que eu imaginava que poderiam existir. No entanto, ouvimos todo dia, lemos em todo lugar, observamos os discursos inflamados dizendo que o Brasil é um país onde não existem oportunidades! Eu recordo de uma frase: “enquanto alguns choram, outros vendem lenços”. E de outra: “não faça previsão de chuva, faça chover”. Precisei fazer uns consertos em casa. Liguei para o pedreiro que eu conhecia, para seu celular. Chegou em seu carrinho novo. “— Ô, Pedro, celular e carro novo?” “— É, seu Luciano, a gente não pode é ficar parado...” Liguei para o marceneiro. Não podia me visitar. Só no mês que vem. Está cheio de encomendas e não tem como atender. Uma empregada pediu as contas. Terminou o curso de manicure e foi trabalhar num salão. Um dia quer ter seu próprio instituto de beleza. Gente humilde. Que, por ser humilde, por não ter posses, tem mais dificuldades do que eu, que tenho posses, tive educação, tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho meu salário por mês. Não sou rico. Sou classe média, de média para alta. Tenho orgulho do que tenho. Não herdei nada de meus pais nem de meus sogros. Não ganhei nada no mole, na sorte. O emprego que tenho consegui indo atrás de um anúncio de jornal, há 21 anos. Trabalho entre 12 e 16 horas por dia. À noite e nos fins de semana escrevo, leio, estudo. Nunca parei, sempre fui atrás de meus sonhos. Nunca acreditei em quem disse que seria difícil, que não daria. Formei-me num treco estranho: sou Bacharel em Comunicação Visual. Um diploma que não me garantiria nada. E cresci, porque nunca parei. O que existe em comum entre as pessoas que eu citei acima? Você acha que algum deles conseguiu melhorar de vida sem ir atrás? Na SORTE? Eu duvido. Todos venceram ou estão no caminho, dentro das regras estabelecidas. Nenhum se deixou abater pela dificuldade, pelo preconceito, pelos poderosos. Foram explorados, desestimulados, maltratados... mas estavam focados. Tinham um objetivo. Em vez de reclamar... foram atrás. E hoje temos no Lula, o exemplo maior de que foco, perseverança e luta são imbatíveis. Sucesso não acontece só para os filhos dos ricos ou para os que tiveram a educação que o dinheiro pode comprar. Sucesso acontece para quem busca. Para quem constrói seu futuro, em vez de reclamar do poderoso, de esperar que alguém venha em seu socorro, de exigir que lhe dêem a parte que julga ser sua por direito. Nenhum deles ESPEROU. Todos usaram a energia, que podia gerar rancor, para produzir, para construir seu futuro. Aliás, o Lula só chegou lá quando entendeu essa equação. Tiveram sorte? Sim. Vão dar certo? Alguns já deram. Outros tem de provar que merecem a esperança neles depositada. Mas talvez haja aí uma lição. A de que o Brasil é um país de oportunidades, sim, senhor. Mas só para quem vai atrás.

Capítulo 43 Um Brasileiro De repente, surge um brasileirinho... do nada. Pobre, esquecido, maltratado. E, como mágica, revela um talento que assombra o mundo. Afinal, talvez não sejamos tão vira-latas... Três da madrugada do domingo. Eu devia estar dormindo, mas estou lá com os olhos pregados na televisão enquanto o Popó troca porradas com o cubano. E, depois que acabar, não vou conseguir dormir até baixar a adrenalina. Nosso herói brasileiro e a ansiedade que ele provoca são típicos. Será que ele está emocionalmente bem? Terá brigado com a esposa? O pai sarou do câncer? E o peso dele, que está sempre acima? E os 12 assaltos? Ele nunca lutou tantos! De cada 10 preocupações com nosso herói brasileiro, só uma tem a ver com o boxe, com a técnica e habilidade do nobre esporte. Não vou entrar na polêmica sobre o que pode haver de nobre em dois marmanjos se moendo de pancada, mas tem quem goste. De qualquer forma lá estava outra vez o Brasil contra Cuba. A mesma Cuba vilã dos esportes coletivos. E o cubano caprichou. Deu cabeçada, cotovelada e porrada na nuca, enquanto o herói brasileiro ia em frente. No final, a coisa ficou dramática, com o Popó meio cambaleante, deixando todos com o coração na mão, esperando uma pancada do cubano que derrubaria nossos sonhos. Mas Deus é grande. E o Popó é... bem, o Popó é brasileiro. Resultado: temos outro campeão mundial. Incontestável. No final da luta, suas declarações: um poço de humildade e simpatia. As perguntas pertinentes do repórter americano traduzidas meia-boca por um sujeito que parecia arrotar em vez de falar eram respondidas simploriamente pelo brasileiro. E, no final, ele mandou ver no inglês: “Me, América, Olimpic Games...” Hilário. Mas irresistível. De volta ao Brasil, o que ele quer? Quer ser igual ao Guga, ao Eder Jofre, ao Senna. Vai entregar o cinturão para ACM. E não tem o menor problema em dizer que não sabe nada de inglês e decora e repete o que os outros falam. O Popó e sua luta são a representação do Brasil deste começo de milênio: o sujeito que vem do nada, pobre, com pouca ou nenhuma cultura e uma perspectiva de futuro estreita. Encontra uma oportunidade num esporte marginal no Brasil e dedica-se, treinando em academias de quinta categoria, participando de lutas sabe-se lá onde e com que tipo de organização, até destacar-se. Vira campeão. E não tem problemas em expor-se, chorando em público e até mesmo explicitando sua dor pela briga com a noiva, que quase compromete sua carreira. Coitadinho, simpático e bonzinho, coloca milhões de brasileiros a seu lado, na luta pela recuperação do amor perdido e da ânsia de partir para o campeonato mundial. Cara, se me contam essa história, vou dizer que é roteiro de filme. E daqueles bem óbvios. Mas é a verdade. Do Popó e do Brasil. Falta dizer que a maior luta não é física. É psicológica. Contra as tentações que surgem de todo lado junto com a fama, com os aproveitadores e com os céticos, que teimam em dizer que a competência do campeão é arranjada, forjada em lutas de araque com adversários fracos. “Quando aparecer um adversário forte, a máscara vai cair”. Foi assim com o Popó. É assim com o Brasil. O Popó brasileiro traz dentro de si alguns atributos que as pessoas de outros países pagam para aprender na escola, que são descritos em tratados nas mais importantes revistas de negócios do mundo, que estão em livros de gerenciamento, que fazem a fortuna dos consultores da crista da onda. O Popó brasileiro, de origem humilde, traz dentro de si orgulho, motivação, criatividade, coragem, alegria, flexibilidade, intuição. Coisas que não se aprende na escola, que não podem ser conseguidas só com computadores ou dinheiro. Atributos que nascem com o indivíduo. E que, surpreendentemente, fazem parte da cultura brasileira. Dá para explicar o Guga de forma diferente? Ou o pessoal das escolas de samba, produzindo o maior espetáculo da terra, no dia certo, na hora certa, com desafios de logística que exigiriam batalhões de engenheiros americanos e que aqui são resolvidos pelo Zé da Cana ou o Serjão da Bateria? O Popó é uma zebra, como o Guga é, assim como a Danielle Hipólito, só para ficar com os mais contemporâneos. Eu podia ir de João do Pulo, Zequinha Barbosa e outros tantos talentos que seguem o modelo brasileiro: o modelo Popó, aquele que não sai de uma linha de produção sistemática, de uma academia aparelhada, de um laboratório de atletas, mas dos subúrbios e da dedicação abnegada e iniciativa individual. Quando o modelo Popó é duplicado, temos situações irresistíveis. Não é, por exemplo, curioso ver o sucesso dos times de vôlei feminino e masculino, basquete e futebol? Os esportes coletivos em que cinco, seis ou 11 Popós em campo deixam as grandes potências para trás? Moçada, nós, brasileiros, temos algo abençoado. Uma cultura rica, que faz com que os indivíduos nasçam com os atributos do Popó. Mas, se é assim, por que o Brasil não dá certo de uma vez? Faltam-nos outros atributos que, no final, pesam mais na balança. Falta-nos a disciplina coletiva, o comprometimento de cumprir o que prometemos, pensar em longo prazo, o orgulho conseqüente, que motiva e se transforma numa força positiva. É por isso que a França, a Alemanha ou a Inglaterra, sem talento, viram campeãs do mundo no futebol. Pois DISCIPLINA coletiva é capaz de arrancar água de pedra. E talento sem disciplina coletiva arranca o quê? Quando é cada um por si, dá para conseguir um título mundial de boxe, de tênis ou de ginástica olímpica. Mas quando é um país, onde tem de ser todos por todos, arranca apenas lágrimas. Bem-vindo, Popó, ao time dos grandes campeões. E obrigado por dar-nos mais essa certeza de que somos capazes de ganhar de qualquer um, menos de nós.

Capítulo 44 E Pur Si Muove Quem foge da mediocridade é considerado louco pelos medíocres. Maluco. Diferente. Ainda bem que tem gente disposta a ser louca. Cena 1: lá vem a modelo. Linda. Com aquele andar esquisito, mas gostoso de ver. E as caras e bocas. Na cabeça, um treco estranho que parece uma vassoura. Aquilo que deveria ser uma blusa é um pano enrolado. Que engraçado, no lugar da saia (ou seria um short?), uma tela de galinheiro. Nos pés uma bota cor-de-rosa com salto de 15 centímetros... a mulher parece um etê! “Mas quem é que vai usar essa merda?” Cena 2: com toda paciência, sento-me para assistir a um dos filmes de Glauber Rocha. Bastam cinco minutos para o desconforto aparecer. Imagens bizarras, interpretações insólitas, texto difícil de entender, montagem inusitada... “Mas quem é que vai assistir essa merda?” Cena 3: boto um CD pra escutar: jazz moderno, cheio de acordes esquisitos, com ritmo estranho, fraseados fora de costume. “Mas quem é que vai ouvir essa merda?” Cena 4: compro uma dessas revistas alternativas: texto engraçado, diagramação inusual. “Mas quem é que vai ler essa merda?” É sempre assim: desde que o mundo é mundo tem alguém fazendo uma coisa doida, que a gente não entende, não gosta, não compreende. "Isso é coisa de loucos!” Pois recebi do pessoal da Endeavor, uma ONG voltada ao empreendedorismo criativo, uma “Ode aos loucos”: Também chamados de desajustados, rebeldes e criadores de caso. Aqueles que vêem coisas de um forma diferente, que não gostam de muitas regras e que não respeitam o status quo. Você pode elogiá-los, discordar ou duvidar deles, endeusá-los ou difamá-los. A única coisa que não pode fazer é ignorá-los, pois eles provocam mudanças. Eles inventam. Imaginam. Resolvem. Exploram. Criam e inspiram. Eles obrigam a raça humana a evoluir. Talvez eles tenham que ser loucos. De outra forma, como alguém poderia enxergar uma obra de arte em uma tela vazia? Ou sentar em silêncio e imaginar uma música que nunca foi escrita? Ou olhar a lua e imaginar uma estação espacial? Alguns podem vê-los como loucos, nós os chamamos de empreendedores. Pois as pessoas que são loucas o suficiente para pensar que podem mudar o mundo, são justamente aquelas que o fazem. Na mosca! Foram doidos assim que, ao não se conformar com o jeito como as coisas são, ao não concordar com as regras conforme elas são, ao não aceitar fazer parte da rotina, inventaram coisas que mudaram as nossas vidas. A moda é muito louca? Muito esquisita? A música é ininteligível? O filme é chatíssimo? A revista é doida? Sim, por sorte. Muito dessa loucura radical será traduzida em regras, produtos, propostas e conceitos aceitáveis aos “normais”. A moda que surge da liberdade de criação do artista vai influenciar a produção industrial e criar uma tendência que pode inovar a forma da gente se vestir. A tela de galinheiro, engraçada, a princípio, pode virar uma trama que será a moda da estação. A montagem nervosa ou o enquadramento maluco daquele filme transformam-se num recurso para garantir mais dramaticidade, agilidade ou adrenalina aos filmes comerciais. A diagramação ininteligível aponta um estilo ou caminho que vai influenciar as publicações convencionais. É assim com as manifestações artísticas. Aquelas “merdas” traduzidas, adaptadas, multiplicadas serão muito normais no futuro. E ninguém vai se lembrar que um dia foram merdas... São eles, os loucos, os radicais, os que defendem seus pontos de vista inovadores que vão gerar as tendências, que vão apontar os caminhos para a inovação. E na política, na economia, no mundo dos negócios... é a mesma coisa! As pessoas deveriam entender que é assim a dinâmica da evolução do homem. Talvez isso as ajudasse a conviver em paz com as idéias “absurdas” com as quais cruzam pelo caminho. Talvez sejam absurdas hoje, mas amanhã... No entanto, a mediocridade fala mais alto. A mediocridade processa idéias como um triturador, misturando tudo numa massa uniforme, eliminando nuances, detalhes, sabores, cores, transformando tudo numa coisa só, na maioria das vezes, cinza. E sempre com o respaldo de um líder, de uma tese, de uma idéia. É assim que o Corão é utilizado como desculpa para o terrorismo sangrento; que o capitalismo é transformado num modelo de exploração, culminando numa proposta de globalização mal-entendida, mal-gerenciada, mal-explicada;que o comunismo é desviado de seus valores iniciais, passando a servir como desculpa para regimes sanguinários e restritivos; que as religiões servem de base para espertalhões que exploram o povo com programas de tevê e sermões vazios; que a reengenharia é transformada num processo para mandar gente embora; que o amor por um time de futebol vira desculpa para agressões e violência. O fato é um só: estamos rodeados de inquisidores. Não no sentido de perguntadores, mas da Inquisição mesmo. O mesmo tipo de gente, dogmática, que se junta em grupos e assume uma coragem, um poder, um credo, que dificilmente conseguiria sustentar sozinha. Gente como aquela que só não condenou Galileu ao fogo porque ele concordou em negar sua tese de que a terra giraria em torno do sol. Por sorte, Galileu era um daqueles loucos que a gente encontra por aí, que não aceitam a mediocridade, que, mesmo ameaçados, sussurram: “E pur si muove”.

Capítulo 45 No Pain, No Gain Tudo tem seu custo. Só os medíocres acreditam que têm direitos sem cumprir seus deveres. E os deveres doem... assim como as conquistas. Para ir ao céu, tem de morrer primeiro. Era uma entrevista de Oscar Schmidt para Marilia Gabriela. A pergunta era interessante: os jogadores de futebol dizem que o orgasmo do futebol é o gol. Qual seria o equivalente no basquete? “Jogar pela Seleção. Vestir a amarelinha.” E o campeão passa a contar como se sentia e o que tinha de fazer para defender o time brasileiro. E ele jogava sem seguro. Terminada a temporada na Itália, vinha para o Brasil e continuava jogando pela Seleção. Sem ganhar nada, sem seguro, sem conforto. “Já imaginou” — dizia ele para Marilia — aqueles gigantes de mais de dois metros, viajando na classe econômica, encolhidinhos, por 20, 30 horas, até a China? Não era mole não. Tudo pelo amor à camisa... Vi o tempo todo o brilho nos olhos de nosso experiente campeão... Que sacrifício... Aí, lembro do Popó contando sobre seu início de carreira, e do Piquet também. E, então, vejo uma matéria com nosso grande ator, Lima Duarte, no Mercado Municipal de São Paulo, contando que chegou ali num caminhão de verduras, vindo de Minas, com uma mão na frente e outra atrás... Fica impossível não fazer um paralelo com o Presidente Lula. Gente que, para chegar aonde chegou, levou anos... investiu tempo e energia e, não raro, comeu o pão que o diabo amassou. Uma vez, quando comecei a fazer academia para tentar manter a forma física, um cartaz na parede chamava a atenção: NO PAIN, NO GAIN. Mais ou menos: SEM DOR, SEM GANHO. Era preciso malhar muito, suar a camisa, sentir as dores musculares para ver os resultados. Na moleza, nada de músculos. Pois durante toda a vida tive milhares de exemplos que apenas vieram a comprovar essa tese. Mas o melhor aconteceu quando fiz minha caminhada ao Campo Base do Everest, no Nepal, em abril de 2001. São 200 quilômetros de pura exaustão. Subidas íngremes e descidas para acabar com qualquer joelho, dores de cabeça, falta de oxigênio, frio abaixo de zero. Em determinados momentos, eu achei que não conseguiria prosseguir, tamanho sofrimento... Mas sabe o que eu fazia nos momentos de desespero? Eu olhava para cima. E via montanhas com oito mil metros de altura. Via que eu estava no Himalaia, a caminho do meu sonho. Essa constatação bastava para me dar as forças que faltavam. No final da viagem, ficou claro que aquela minha experiência não poderia ter sido de graça. Não dá para simplesmente pegar um avião, descer no Campo Base do Everest e ver o que eu vi, viver o que vivi. As maravilhas que me impactaram para o resto da vida têm um custo: o sofrimento da caminhada. É preciso passar por tudo aquilo para vivenciar minha experiência. Sem sacrifício, não se conquista a montanha. No pain, no gain. Quando minha viagem terminou, ficou aquela sensação gostosa do dever cumprido. Um prazer saboreado ao recordar cada passo, rever cada foto. Uma sensação como aquela dor muscular gostosa depois da atividade física. A dor que nos dá a certeza de que estamos progredindo. A dor que é vencida conforme vamos ficando melhores. De volta ao Brasil, pude perceber que o valor que as pessoas davam à minha viagem não era pelo fato de eu ter alcançado meu objetivo, mas pela coragem de assumir o risco, de enfrentar o sacrifício. E descobri que SACRIFÍCIO anda junto com REALIZAÇÃO, com RESPEITO, com CONQUISTA. É o SACRIFÍCIO que nos faz fortes, que nos prepara para desafios maiores, que nos dá um dos únicos verdadeiros tesouros da existência: a EXPERIÊNCIA.

Capítulo 46 Provocações Tenho tentado colocar em meus textos a grande contradição de nossos tempos. Convivemos com verdades antagônicas. Não existe mais o lado bom e o ruim, assim absolutos, reconhecidos à primeira vista. Essa distinção está demolida pela complexidade de nossas vidas e a mídia tem sido a grande responsável. Usando o que já foi chamado de "pseudo-eventos” ela contribui para criar mitos e dar importância a fatos que antigamente seriam menores. Infelizmente, a mediocridade dos que fazem a mídia não compreende essa construção. Esconde-se atrás de uma “liberdade de imprensa” que é usada para justificar a disseminação da burrice e de uma realidade mentirosa, que gera reações que a legitimam. Vejam a construção do mito Fernandinho Beira-Mar. Nos anos 60, ele teria sido liquidado na primeira prisão. Seu corpo teria desaparecido e ele não passaria de uma estatística. A mídia ainda vivia de mitos, de certa forma românticos, como o Bandido da Luz Vermelha. E o poder policial era perigoso e temido. Até em excesso... Hoje, Beira-Mar é o grande bandido, o gerador de audiência, o dono dos holofotes. Ficou invulnerável. Toda a mídia estampa aquele olhar maligno nas capas... o grande articulador das mazelas brasileiras, o homem que ultrapassa os muros das prisões. O homem que tem o poder de vida e morte sobre nós, pobres mortais. Será verdade? Eu tenho a plena convicção de que o Fernandinho é café pequeno. É cria da mídia. É bandido — perigoso — mas não tem os superpoderes que a mídia lhe confere e a sociedade, anestesiada, ratifica. Bandidão mesmo é quem está por trás dele, inatingível, posto que bem colocado na sociedade. Esse, a mídia não vai buscar. Vejam a Guerra do Iraque. Saddam é ditador, sanguinário e tem que ser tirado de lá o mais rápido possível? Verdade. A ação dos norte-americanos é condenável? Verdade. Mas e se essa guerra tivesse sido deflagrada no dia 10 de setembro de 2001, no dia seguinte ao ataque às torres? Depois que a mídia colocou os aviões dentro de nossas salas de jantar, teríamos o mundo todo ao lado dos norte-americanos, lançando suas bombas sobre o Iraque, a Síria e a Arábia Saudita. Condenar os EUA seria, então, uma mentira. Nada de passeatas contra a guerra, de boicote aos norte-americanos... você tem dúvida? Mas se passou muito tempo. Esquecemos o 11 de Setembro. Entregamo-nos à discussão sobre o foco no petróleo, no poder pelo poder, na falta de sensibilidade dos EUA... temas secundários, mas matéria-prima de primeira para a mídia e para nossas teorias da conspiração. Não é tão simples. Depois do 11 de Setembro, certos ou não, os norte-americanos tinham de mostrar que quem mexe com eles se dá mal. E na falta de Bin Laden, foram buscar Saddam. Que, se bobear, sequer sabia dos atentados. Mas os EUA tinham de mostrar ao mundo. Tinham de impor o respeito pela porrada. Fosse eu o Bush, faria diferente. Seria muito mais simples, mais barato, menos traumático e mais eficiente dar 10 bilhões de dólares para os israelenses, que entrariam no Iraque e liquidariam Saddam e seus seguidores em uma semana. E o mundo só ia perceber um ano depois... Mas isso é low profile. Não serviria como lição... Os EUA estão errados. Mas os EUA estão certos. Verdades conflitantes. Não venham me cobrar coerência. Sou um habitante do novo milênio. Não sei mais o que é verdade e o que é mentira. Quando muito, reflito. Quando pouco, provoco.

Capítulo 47 Assim mesmo Talento. Alegria. Irreverência. O Brasil que vence a mediocridade. Copa do Mundo, 2002. Brasil e Turquia na semifinal, primeiro tempo. “Pô, o Ronaldinho tá se arrastando em campo!” “Será que o Felipão é burro? Estamos jogando com dez!!!” O time volta para o segundo tempo sem modificação. “Vai esperar a Turquia fazer um gol pra botar o Luizão!” Começo do segundo tempo, o Ronaldinho que andava em campo domina a bola e, no meio de quatro turcos, dá de bico e faz o gol que coloca o Brasil na final da Copa. Brasileiro é assim mesmo. Qualquer país daria tudo para estar na nossa situação, ganhando apertado aqui, com a ajuda do juiz ali, com um pouco de sorte acolá e dependendo da habilidade de um ou de outro jogador. Mas brasileiro não quer só ganhar. Quer dar espetáculo, humilhar o adversário... Que tal aquela cena dos quatro turcos correndo atrás do Denílson que parecia ter a bola grudada nos pés e infernizou os pobres adversários? Brasileiro é assim mesmo. Aí, a outra situação. Rivaldo se enrolando em campo. Mata mal a bola, erra passes, perde o drible e deixa de passar a bola para companheiros melhor colocados que podem fazer o gol. Isso aconteceu em todos os jogos. Para nossa sorte, ele também teve seus lampejos de gênio e fez gols importantes, lançamentos primorosos e dribles desconcertantes. Eu não vi o Rivaldo jogar para ser o melhor em campo ou o melhor da Copa. Mas quase todos os comentaristas de tevê e rádio, sim. O jogo terminava, eu louco da vida com o Rivaldo, e eles todos elegendo-o o melhor do jogo, o melhor da Copa, o melhor do mundo. Será que o tubo da tevê modifica aquilo que o telespectador vê, em relação ao que os comentaristas vêem? Pode ser. Aí estaria explicado. E eu poderia continuar achando que o Cafu foi o melhor jogador no Brasil e Turquia e que o Marcos foi o melhor em outro jogo, que o Roberto Carlos noutro... pois os comentaristas teriam assistido a outro jogo! Para mim, Rivaldo é “só” um bom jogador, desconjuntado e irritantemente fominha. Talvez boa gente, não o conheço. Somando os bons e maus lances dos jogos em que participou, sempre dá quase zero. Mas esse quase é fundamental. Sempre acaba resolvendo. Afinal, fez quase um gol por jogo! Mas daí a ser sistematicamente o melhor do mundo... Mas brasileiro é assim mesmo. O jogador está mal? Substitui logo! O jogador fez um gol? Está tudo perdoado. O time joga mal? O técnico é teimoso e burro. O Ronaldinho mal andava, mas fez o gol da classificação? O técnico é teimoso, burro e sortudo. Tratamos tudo com paixão, reduzindo situações complexas à superficialidades e saímos achando que é só escalar o Ricardinho. Mas boa vontade, lógica, esquema tático e força física não ganham jogo. Fosse assim, teríamos Itália, Argentina e França nas finais. O que ganha mesmo é aquela dose de talento misturada a uma imensa, irresistível, inigualável irreverência. De que outra forma dá para descrever o gol do Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra? O irresponsável não cruza na área, como seria lógico. Dá um chute quase do meio de campo e engana o goleiro, os outros 20 jogadores, o banco de reservas, o juiz, a torcida no estádio e os outros dois bilhões que assistiam pela tevê. Maluco, irresponsável, irresistivelmente alegre, talentoso, imprevisível. Essa foi a receita para o penta. Afinal, brasileiro é assim mesmo...

Capítulo 48 O Brasil que me emociona Pen-ta-cam-pe-ão! Arrepiado, corro os olhos pela multidão cantando o Hino Nacional. Em lágrimas, sei que naquele momento estou cantando para algo que é eterno, muito maior que ideologias ou políticas: minha pátria. E não confundo a pátria que me emociona com seus governantes. Minha pátria é formada pelas almas, corações, sentidos e emoções de 160 milhões de pessoas. Naquele momento, sou PT, PSDB, Arena e MDB. Sou corinthiano, flamenguista, gremista e atleticano. Sou católico, protestante, budista e umbandista. Sou preto, sarará, amarelo e branquelo. Sou médico, engenheiro, advogado e padeiro. Sou alto, baixinho, magro e gordinho. Sou homem, mulher, criança e jovem. Sou trabalhador, vagabundo, mocinho e bandido. Sou sensação, emoção, inteligência e motivação. Sou rico, pobre, polícia e bombeiro. Sou inteiro, completo, irremediavelmente brasileiro. E questiono quantos têm coragem de falar o que eu escrevi acima com orgulho. Pergunto a razão de precisar de uma copa, de um locutor berrando, de grupos folclóricos falsamente entusiasmados e de propagandas bonitinhas para dar aos nossos filhos a chance de sentir essas mesmas emoções. Quando criança aprendi o Hino Nacional, o da Bandeira, o da Independência. E aprendi que são bonitos. Meus cadernos escolares tinham na contracapa o mapa do Brasil e as letras dos hinos. Eu cantava o hino no pátio, com a mão no coração, enquanto a bandeira era hasteada. Eu desfilava no Sete de Setembro, sonhando tocar na fanfarra. Pelé, Rivelino, Tostão e Gerson não deixavam dúvidas sobre o melhor futebol do mundo. Eu estava pronto para aceitar valores, conceitos, exemplos. Eu respeitava meus mestres. Eu tinha ingenuidade. Aí, cresci e disseram que eu era um inocente útil. E lembram-me a cada minuto que não há razão para ter orgulho de ser brasileiro. Corro para me proteger nos meus velhos ícones. E encontro os cadernos de meus filhos com Tiazinhas e Picachus na capa. Minha seleção continua sendo a melhor do mundo, mas morri de medo da China e da Costa Rica... É... não adianta achar que antes era melhor. Era apenas diferente. A gente nascia em casa, não na maternidade. Os aniversários eram comemorados em casa, não no buffet. Os velórios eram feitos em casa, não no cemitério. A gente fazia amor em casa, não no motel. E talvez isso nos tenha feito esquecer um pouco de nossa casa. Talvez tenhamos perdido, sem perceber, o amor pela nossa casa, nosso país. Mas tem coisas que não deviam mudar. Aquele arrepio que eu citei no começo deste texto, por exemplo. Saber que pátria é uma coisa, e governo é outra. Revoltar-se contra a mediocridade. Não aceitar tudo que é dito. Pensar criticamente. Emocionar-se com seu país. Fazer acontecer. Aceitar que o outro pode estar certo. Cumprir o que prometemos... isso é básico. Como é básico valorizar o que é nosso, sem todo esse rancor, desesperança e descrédito dos brasileiros com os brasileiros. Como é básico pensar, atividade esquecida neste amargo Brasil do novo milênio. Entramos agora numa nova fase. Consolidando um processo democrático, a herança maior que Fernando Henrique Cardoso deixa. Após oito anos, o Brasil passa a ser dirigido pela oposição, por um representante do povo, de origem humilde, ciente dos problemas sociais e da necessidade de lutar pela justiça social. Algo que todo Brasileiro, com “bê” maiúsculo, sempre julgou necessário. Há gente preocupada. Há gente entusiasmada. Há gente desiludida. Há gente com expectativa. Há gente com esperança. O mesmo tipo de esperança que provoca uma catarse quando, a cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, um grupo de 30 brasileiros converge para si toda a energia e esperança de um povo. Pois façamos votos para que este outro grupo, que carrega consigo o destino do Brasil pelos próximos quatro anos, mire-se no exemplo de nossos atletas nas grandes disputas. A experiência rara em que todos focam um único objetivo, discutem como acertar, sugerem como melhorar. Todos torcem a favor. E a gente vê responsabilidade, respeito, amor-próprio, criatividade, talento, energia, esperança e fé. Como foi o Brasil do penta. O Brasil que me emociona...

Capítulo 49 Mc Burros Nosso complexo de vira-latas, o deslumbre com os processos do “primeiro mundo” e nossa infinita capacidade de raciocinar de forma rasa, mediocrizando nossas vidas. Antigamente eu pedia assim meu xisbúrguer: “Por favor, quero um xis-salada, mas com pouca maionese, num pão francês, com bastante alface e pouco tomate. E capricha no queijo. Hoje, minha filha pede assim: “Por favor, me dê um número dois”. Essa ação inocente é emblemática sobre o quão profundamente estamos acostumados a fórmulas prontas. Decoráveis. Pensamentos dos outros que a gente empresta e usa... Estamos caminhando para um emburrecimento só comparável àquele encontrado no norte-americano médio: gente que desconhece qualquer conceito básico sobre o mundo situado a mais de um metro de seu nariz, treinada para viver numa sociedade de soluções prontas, incapaz de improvisar ou criar, por não ter sido ensinada a pensar. Experimente pedir um Big Mac sem molho nos EUA, quebrando a rotina do processo decorado, para ver o que acontece... Lembro-me de uma história contada por uma pessoa que assistiu a minha palestra e que falava de sua filha lidando com uma crise como supervisora numa lanchonete nos EUA. A crise? A quebra da máquina de cortar cebola. A descrição da cena é hilária: a brasileira rodeada por seus subordinados norte-americanos, todos com os olhos esbugalhados, vendo-a manipular com destreza uma faca e... cortar manualmente a cebola. “É assim que se faz!” A proposta dos empregados era fechar a lanchonete até a máquina ser consertada... Meu, os caras eram incapazes de se imaginar cortando a cebola manualmente. Tão condicionados pela fórmula, pelo sistema, perderam completamente a capacidade de... criar! E chega a brasileira, abusada, indisciplinada, e coloca-os em contato com a realidade. É provável que ela tenha recebido uma ameaça de processo por ter obrigado os empregados a desempenhar uma função para a qual “não foram contratados”. Há quem diga que minha filha consegue o sanduíche de forma mais prática e rápida do que eu, que tenho que ficar pensando para fazer minha escolha. Pode ser. Mas eu como o sanduíche que eu quero, feito só para mim... Essa é a grande diferença que encontro, quando tento comparar os brasileiros com os norte-americanos. Trabalho numa empresa de capital norte-americano. Tenho contato semanal com os norte-americanos. E constantemente estou nos EUA em meio a reuniões. Se você também tem a chance de trabalhar com os norte-americanos, sabe muito bem a diferença que existe entre os dois povos. Sabe que, hoje em dia, são necessários três norte-americanos para fazer o trabalho que um brasileiro executa como tarefa normal de seu dia-a-dia. Passei uma semana nos EUA, trabalhando num escritório de lá. Quase fiquei louco. Todos dentro de suas baias. Quase incomunicáveis, sem calor humano. O telefone raramente toca. Ninguém entra esbaforido na sala de ninguém. Ninguém fala alto. Não existe aquele clima de feira livre dos escritórios brasileiros. Adrenalina? Só quando o chefe aparece... e de medo. A impressão é de que a pessoa lá não tem prazer trabalhando. Experimente tentar encontrar os caras às 4:01 PM. Só no campo de golfe... Virar noite? Lenda. Trabalhar no fim de semana? Só se for para rescaldar vítimas de tragédias. Enquanto isso, o brasileiro trabalha no limite da crise, na ponta da faca, sobre a corda-bamba. Tudo é para ontem. Toda a decisão tem de ser tomada agora. Temos pressa. Não seguimos as regras, que na nossa visão apenas atravancam as coisas. Colocamos uma tremenda fé em que vamos conseguir, e, na maioria das vezes, conseguimos... Há quem diga que os americanos são mais inteligentes, por isso não têm de sair correndo como loucos atrás de improvisar: já pensaram na solução antes. Pode ser. Talvez por isso possam engordar e emburrecer tranqüilos. Quantas vezes me diverti vendo a cara dos americanos, incrédulos, visitando a fábrica que montamos em três meses... e que no projeto deles levaria nove... “How did you...?” “Ué, ui didi....” E aí o gringo pede a planilha, o plano, o cronograma, o relatório. E a gente entrega qualquer coisa, meio nas coxas, afinal, fizemos o que tinha que ser feito, não é? E, em vez de admiração, recebemos desprezo. “They have no discipline. No commitment.” Ah, se essa capacidade para fazer acontecer, para ser flexível, para encontrar saídas, para criar fosse convenientemente marqueteada mundo afora. O brasileiro seria imbatível! Mas, em vez disso, estamos tentando adaptar nosso jeito de ser aos processos de primeiro mundo. Importamos ISOs, QSs, Six Sigmas, reengenharia e tantos outros processos, tendências e modismos. Misturamos os ingredientes, como se faz num fast food. Aí, simplificamos. Interpretamos pela metade. E implementamos. Fica mais ou menos como nossas seleções dos anos 80: cheias de craques, tentando jogar como os europeus e sendo despachadas da Copa antes da final. Pois sabe o que é que essa fast food cultural produz? MC bobos. MC ignorantes. MC burros. Gente, até dá para dar uma incrementada com umas fritas aqui, um ketchup ali, mas tudo que o Brasil precisa, hoje, é de MAIS arroz com feijão...

Capítulo 50 Nas Coxas Quando criatividade, flexibilidade e senso de oportunidade são transformados no “jeitinho” e, em vez de atributos positivos, passam a ser nossos maiores defeitos. País de primeiro mundo tem seus problemas básicos praticamente resolvidos, liberando tempo e energia para coisas importantes, como o lazer. Seu sucesso deve-se à disciplina, ao comprometimento com os processos. Aos planos bem-feitos e aos de contingência e à repetição de fórmulas prontas. Dizem que como no Brasil não temos nem planos, quem dirá de contingência, vivemos sempre apagando incêndios, fazendo tudo “nas coxas”. Daí a capacidade criativa e flexibilidade. Houvessem planos, não teríamos de gastar tanta adrenalina nem fazer nas coxas. Nas coxas...Esse termo vem do fato das telhas de barro do período colonial terem sido moldadas nas coxas dos escravos, nunca se encaixando direito umas nas outras. Virou sinônimo de coisa mal-feita. Mas mal-feita, conforme o quê? Comparado com que processo? No exemplo do MC BURROS, da fábrica que erguemos em três meses quando o plano dos norte-americanos exigia nove, não fizemos "nas coxas". Fizemos do nosso jeito, flexibilizando onde achamos que dava e ganhando tempo. Ficou bom, abaixo do custo estimado, mais rápido, mas não seguiu a receita dos colegas dos EUA. Para eles, foi nas coxas. Pois vejo vantagens, sim, sem bairrismo, na disposição brasileira para buscar saídas não convencionais aos problemas. Na indústria automotiva brasileira temos milhares de exemplos de soluções que, sob o ponto de vista dos processos de primeiro mundo, seriam consideradas "nas coxas". Ninguém fabrica motores de 1 litro como os brasileiros. Ninguém tem tecnologia para alternativas à gasolina como nós, que exportamos conhecimento sobre motores a álcool para o mundo todo. Nós desenvolvemos um ônibus com motor híbrido que é o melhor do mundo. Aqui no Brasil nasceu o melhor motor a gás para veículos pesados. O design do Gol, o carro mais vendido de todos os tempos, é brasileiro. Verdadeiros achados, que seguem a cartilha brasileira, mais flexível, menos padronizada, mais rápida, do jeito que precisamos. Vejo com satisfação conterrâneos assumindo postos importantes nas operações do primeiro mundo. Claro que eles têm cultura e preparo, mas vencem principalmente pela bagagem brasileira, impregnada de qualidades que faltam aos autômatos do primeiro mundo. Nossos compatriotas têm predisposição a correr riscos. Não têm problemas em buscar soluções não convencionais. Mudam na hora que é preciso. E têm expediente para sair das frias como ninguém. Um dos e-mails que recebi citava a situação hipotética em que no desfile das escolas de samba cada uma fosse coordenada por um país. Fiquei imaginando... já pensou a escola de samba alemã? E a japonesa? E a norte-americana? Provavelmente teriam um orçamento de vários milhões de dólares. Um controller para cuidar dos gastos. Consultores para motivar a equipe. Trariam generais para cuidar da logística. Técnicos de Hollywood para os efeitos especiais. Coreógrafos da Broadway para a dança. Uns 25 roteiristas para o samba-enredo. E computadores, milhares... O resultado seria um espetáculo tecnicamente perfeito. Mas sem o sorriso contagiante das baianas desdentadas. Sem o suor de pura adrenalina de cada componente. Sem as mãos cheias de feridas, sangrando de prazer, dos meninos da bateria. Sem os seios das mulatas perfeitas. Sem as lágrimas de desespero do destaque em cima do carro quebrado. Sem o povo nas arquibancadas derramando-se sobre a pista. Sem tesão. Olha, desculpem-me os certinhos, mas sou mais o Joca da Bateria e o Paulinho Fumaça que, sem dinheiro, sem MBA, sem computador, sem falar inglês, fazem o maior espetáculo da terra. Nas coxas. Fim!